DESMONTE DE UMA FALÁCIA
D. Demétrio Valentini
A questão do aborto está sendo instrumentalizada para fins eleitorais. Esta situação precisa ser esclarecida e denunciada.
Está sendo usada uma questão que merece toda a atenção e isenção de ânimo para ser bem situada e assumida com responsabilidade, e que não pode ficar exposta a manobras eleitorais, amparadas em sofismas enganadores.
Nesta campanha eleitoral está havendo uma dupla falácia, que precisa ser desmontada.
Em primeiro lugar, se invoca a autoridade da CNBB para posições que não são da entidade, nem contam com o apoio dela, mas se apresentam como se fossem manifestações oficiais da CNBB.
Em segundo lugar, se invoca uma causa de valor indiscutível e fundamental, como é a questão da vida, e se faz desta causa um instrumento para acusar de abortistas os adversários políticos, que assim passam a ser condenados como se estivessem contra a vida e a favor do aborto.
Concretamente, para deixar mais clara a falácia, e para urgir o seu desmonte:
A Presidência do Regional Sul 1 da CNBB incorreu, no mínimo, em sério equívoco quando apoiou a manifestação de comissões diocesanas, que sinalizavam claramente que não era para votar nos candidatos do PT, em especial na candidata Dilma.
Ora, os Bispos do Regional já tinham manifestado oficialmente sua posição diante do processo eleitoral. Por que a Presidência do Regional precisava dar apoio a um documento cujo teor evidentemente não correspondia à tradição de imparcialidade da CNBB? Esta atitude da Presidência do Regional Sul 1 compromete a credibilidade da CNBB, se não contar com urgente esclarecimento, que não foi feito ainda, alertando sobre o uso eleitoral que está sendo feito deste documento assinado pelos três bispos da presidência do Regional.
Esta falácia ainda está produzindo conseqüências. Pois no próprio dia das eleições foram distribuídos nas igrejas, ao arrepio da Lei Eleitoral, milhares de folhetos com a nota do Regional Sul 1, como se fosse um texto patrocinado pela CNBB Nacional. E enquanto este equívoco não for desfeito, infelizmente a declaração da Presidência do Regional Sul 1 da CNBB continua à disposição da volúpia desonesta de quem a está explorando eleitoralmente. Prova deste fato lamentável é a fartura como está sendo impressa e distribuída.
Diante da gravidade deste fato, é bem vindo um esclarecedor pronunciamento da Presidência Nacional da CNBB, que honrará a tradição de prudência e de imparcialidade da instituição.
A outra falácia é mais sutil, e mais perversa. Consiste em arvorar-se em defensores da vida, para acusar de abortistas os adversários políticos, para assim impugná-los como candidatos, alegando que não podem receber o voto dos católicos.
Usam de artifício, para fazerem de uma causa justa o pretexto de propaganda política contra seus adversários, e o que é pior, invocando para isto a fé cristã e a Igreja Católica.
Mas esta falácia não pára aí. Existe nela uma clara posição ideológica, traduzida em opção política reacionária. Nunca relacionam o aborto com as políticas sociais que precisam ser empreendidas em favor da vida.
Votam, sem constrangimento, no sistema que produz a morte, e se declaram em favor da vida.
Em nome da fé, julgam-se no direito de condenar todos os que discordam de suas opções políticas. Pretendem revestir de honestidade, uma manobra que não consegue esconder seu intento eleitoral.
Diante desta situação, são importantes, e necessários, os esclarecimentos. Mais importante ainda é a vigilância do eleitor, que tem todo o direito de saber das coisas, também aquelas tramadas com astúcia e malícia.
CARTA ABERTA A DOM DEMETRIO
Querido dom Demétrio
Quero publicamente agradecer-lhe as suas palavras esclarecedoras sobre a manipulação da religião católica no final da campanha eleitoral pela difusão de uma mensagem dos três bispos da comissão representativa do regional Sul I da CNBB condenando a candidata do atual governo e proibindo que os católicos votem nela. Graças ao senhor, sabemos que essa divulgação do documento da diretoria de Sul 1 não foi expressão da vontade da CNBB, mas contraria a decisão tomada pela CNBB na sua ultima assembléia geral, já que esta tinha decidido que os bispos não iam intervir nas eleições. Sabemos agora que o documento dos bispos da diretoria do regional Sul 2 foi divulgado no final de agosto, e durante quase um mês permaneceu ignorado pela imensa maioria do povo brasileiro. Agora, dois dias antes das eleições, um grupo a serviço da campanha eleitoral de um candidato, numa manobra de evidente e suja manipulação, divulgou com abundantes recursos e muito barulho esse documento, criando uma tremenda confusão em muitos eleitores. Pela maneira como esse documento foi apresentado, comentado e divulgado, dava-se a entender que o episcopado brasileiro proibia que os católicos votasse nos candidatos do PT e, sobretudo na sua candidata para a presidência. Dois dias antes das eleições os acusados já não podiam mais reagir, apresentar uma defesa ou uma explicação. Aos olhos do público a Igreja estava dando o golpe que sempre se teme na véspera das eleições, quando se divulga um suposto escândalo de um candidato. Era um golpe sujo por parte dos manipuladores, já que dava a impressão de que o golpe vinha dessa feita da própria Igreja.
Se os bispos que assinaram o documento de agosto, não protestam contra a manipulação que se fez do seu documento, serão cúmplices da manipulação e aos olhos do público serão vistos como cabos eleitorais.
Se a CNBB não se pronuncia publicamente com muita clareza sobre essa manipulação do documento por grupos políticos sem escrúpulos, será cúmplice de que dezenas de milhões de católicos irão agora, no segundo turno votar pensando que estão desobedecendo aos bispos. Seria uma primeira experiência de desobediência coletiva imensa, um precedente muito perigoso. Além disso, certamente afetará a credibilidade da Igreja Católica na sociedade civil, o que não gostaríamos de ver nesta época em que ela já está perdendo tantos fiéis.
Se o episcopado católico deixa a impressão de que a divulgação desse documento nessa circunstância representa a voz da Igreja com relação às eleições deste ano, muitos vão entender que isso significa uma intervenção dos bispos católicos para defender o candidato das elites paulistanas contra a candidata dos pobres. Os pobres têm muita sensibilidade e sentem muito bem o que há na consciência dessas elites. Sabem muito bem quem está com eles e quem está contra eles. Vão achar que a questão do aborto é apenas um pretexto que esconde uma questão social, o desprezo das elites, sobretudo de São Paulo pela massa dos pobres deste país. Milhões de pobres votaram e vão votar na candidata do governo porque a sua vida mudou. Por primeira vez na história do país viram que um governo se interessava realmente por eles e não somente por palavras. Não foi somente uma melhoria material, mas antes de tudo o acesso a um sentimento de dignidade. “Por primeira vez um governo percebeu que nós existimos”. Isso é o que podemos ouvir da boca dos pobres todos os dias. Um povo que tinha vergonha de ser pobre descobriu a dignidade. Por isso o voto dos pobres, este ano, é um ato de dignidade. As elites não podem entender isso. Mas quem está no meio do povo, entende.
Os bispos podem lembrar-se de que a Igreja é na Europa o que é, porque durante mais de 100 anos os bispos tomaram sempre posição contra os candidatos dos pobres, dos operários. Sempre estavam ao lado dos ricos sob os mais diversos pretextos. E no fim aconteceu o que podemos ver. Abandonaram a Igreja. Cuidado! Que não aconteça a mesma coisa por aqui! Os pobres sabem, são conscientes e sentem muito bem quando são humilhados. Não esperavam uma humilhação por parte da Igreja. Por isso, é urgente falar para eles.
Uma declaração clara da CNBB deve tranqüilizar a consciência dos pobres deste país. Sei muito bem que essa divulgação do documento na forma como foi feita, não representa a vontade dos bispos do regional Sul 1 e muito menos a vontade de todos os bispos do Brasil. Mas a maioria dos cidadãos não o sabe e fica perturbados ou indignados por essa propaganda que houve.
Não quero julgar o famoso documento. Com certeza os redatores agiram de acordo com a sua consciência. Mas não posso deixar de pensar que essa manipulação política que foi a divulgação do seu documento na véspera das eleições, dava a impressão de que estavam reduzindo o seu ministério à função de cabo eleitoral. O bispo não foi ordenado para ser cabo eleitoral. Se não houver um esclarecimento público, ficará a imagem de uma igreja conivente com as manobras espúrias
Dom Demétrio, o senhor fez jus à sua fama de homem leal, aberto, corajoso e comprometido com os pobres e os leigos deste país. Por isso, o senhor merece toda a gratidão dos católicos que querem uma Igreja clara, limpa, aberta, dialogante. Demonizar a candidata do governo como se fez, baseando-se em declarações que não foram claras, é uma atitude preconceituosa totalmente anti evangélica. Queremos continuar confiando nos nossos bispos e por isso aguardamos palavras claras. Obrigado, dom Demétrio.
José Comblin, padre e pecador.
5 de outubro de 2010
Pe Izaias Junior de Andrade SDN
Av. Prof. Nilton Lins, 510 - Flores
Parque das Laranjeiras
69058-400 MANAUS-AM
92-3654-9056// 8816-1865
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sexta-feira, 8 de outubro de 2010
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
CNBB EM XEQUE
Depois de alguns dias sem internet e de fim de semana intenso na campanha política dos nossos candidatos, volto a postar nesse blog.
Recebi do meu amigo Julio Cesar de Manhumirim, o seguinte artigo com compartilho com voces.
''A CREDIBILIDADE DA CNBB ESTÁ SENDO COLOCADA EM XEQUE''. ENTREVISTA ESPECIAL COM DOM LUIZ DEMÉTRIO VALENTINI
“A credibilidade da CNBB está sendo colocada em xeque”, alerta Dom Luiz Demétrio Valentini, bispo da Diocese de Jales-SP, ao comentar o episódio de que a instituição teria aconselhado os católicos a não votarem na candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff. Em entrevista concedida, por telefone, à IHU On-Line, Dom Valentini esclarece que em torno do assunto “existe uma falácia que precisar ser desmontada”.
Para ele, o nome da CNNB foi invocado com posições “que não são dela (...) foi feito um estratagema para vincular opiniões pessoais de alguns bispos à imagem da CNBB”. Ele explica: “O equívoco maior se deu no Regional Sul I da CNBB: a presidência recomendou que todos lessem e, levassem em consideração, uma manifestação de duas comissões diocesanas, onde se manifestava, claramente, posições preconceituosas contra Dilma e o PT. A solicitação de que esse documento deveria ser levado em conta, comprometeu o posicionamento do Regional. Com isso, se criou a ambiguidade e o equivoco de que todo o Regional estava de acordo com esse posicionamento, o que não é verdade”.
A segunda falácia, aponta, é ainda mais difícil de ser compreendida. “O fato de lançar a condição de abortistas a todos aqueles que propõem políticas sociais que levem em conta a situação do aborto para melhorar a legislação e as providências para favorecer a vida e evitar situações de aborto”.
Na avaliação dele, instituição que “sempre marcou presença na realidade brasileira”, a CNBB deve se pronunciar diante deste fato, “esclarecendo que ela não tem posição partidária, não tem restrições a nenhum dos dois candidatos”.
Licenciado em Letras pela Faculdade de Palmas, no Paraná, Dom Valentini fez o curso de Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e foi ordenado presbítero em 1965. Foi professor no Centro Universitário de Erexim e na Universidade de Passo Fundo. Durante muitos anos foi pároco na diocese de Erexim, RS quando foi nomeado bispo de Jales, SP, em 1982. Durantes muitos anos foi responsável pelo Setor Pastoral Social da CNBB, período no qual se realizaram as Semanas Sociais Brasileiras. Atualmente é também presidente da Cáritas Brasileira.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – No primeiro turno, alguns bispos aconselharam a sociedade a não votar na candidata do PT, Dilma Rousseff. Qual a postura da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB nessa questão?
Luiz Demétrio Valentini – Esse é um assunto sério e merece muita atenção. Penso que a credibilidade da CNBB está sendo colocada em xeque. A CNBB, tradicionalmente, sempre marcou presença na realidade brasileira como uma entidade responsável que colaborou para a implantação da democracia no Brasil, ciente, claramente, da sua responsabilidade própria. Agora, corre o risco de ser mal interpretada por equívocos acontecidos por manobras em andamento. Existe uma espécie de falácia que precisa ser desmontada e esclarecida. Essa falácia consiste, em primeiro lugar, em invocar o nome da CNBB sobre posições que não são dela. Foram impressos milhares de folhetos com a mensagem: “CNBB proíbe católicos de votarem em Dilma, do PT”. Isso não é verdade. Foi feito um estratagema para vincular opiniões pessoais de alguns bispos à imagem da CNBB. O equívoco maior se deu no Regional Sul I da CNBB: a presidência recomendou que todos lessem e levassem em consideração uma manifestação de duas comissões diocesanas, onde se manifestava, claramente, posições preconceituosas contra Dilma e o PT. A solicitação de que esse documento deveria ser levado em conta comprometeu o posicionamento do Regional. Com isso, se criou a ambiguidade e o equivoco de que todo o Regional estava de acordo com esse posicionamento, o que não é verdade. Isso influenciou o resultado das eleições.
Outra falácia mais séria e difícil de ser compreendida foi o fato de lançar a condição de abortistas a todos aqueles que propõem políticas sociais que levem em conta a situação do aborto para melhorar a legislação e as providências para favorecer a vida e evitar situações de aborto. Foi montada uma acusação, a qual foi vinculada o voto dizendo que quem é católico não pode votar em quem é abortista. Quem disse que determinada pessoa é abortista? O próprio acusador se vê no direito de estabelecer alguém como abortista, sem levar em conta as ponderações que ele faz.
IHU On-Line – Qual o posicionamento da CNBB diante do segundo turno das eleições presidenciais?
Luiz Demétrio Valentini – Enviei um apelo à CNBB. Estou aguardando um pronunciamento da presidência da CNBB. Fiz questão de ressaltar a Dom Geraldo Lyrio Rocha, presidente da CNBB, que se fazia necessária uma clara tomada de decisão da presidência, esclarecendo que ela não tem posição partidária, não tem restrições a nenhum dos dois candidatos, de modo que se torna urgente enfatizar a posição de neutralidade em termos de opções partidárias e eleitorais. Espero que esse pronunciamento seja feito ainda hoje (6-10-2010) e coloque com muita evidência que a posição da presidência do Regional Sul I da CNBB foi fruto de um equívoco, que, me parece, deveria ser esclarecido pelos próprios autores que elaboraram a declaração.
IHU On-Line – Como percebe o posicionamento de Dilma em relação ao aborto? Ela está tratando o tema de maneira diferente no segundo turno?
Luiz Demétrio Valentini – Penso que ela demorou a se dar conta da gravidade das acusações que eram feitas contra ela e da complexidade do assunto. Percebo que ela tem convicção de que o aborto é um problema de saúde e que não se reduz a isso. Então, deveria ter manifestado de maneira mais enfática o reconhecimento da defesa da vida desde a sua fecundação, como a Igreja afirma. Ela precisava perceber melhor a causa que está em jogo. Dilma tem a oportunidade de esclarecer melhor o seu posicionamento no segundo turno.
IHU On-Line – O que diferencia o posicionamento de Dilma e Serra em relação ao aborto?
Luiz Demétrio Valentini – Serra, como Ministro da Saúde, referendou medidas concretas de prática do aborto. De modo que, aqueles que de maneira tão enfática acusam a Dilma de abortista, deveriam se dar conta de que o outro candidato também teve um posicionamento, o qual pode ser, de acordo com o rigor dos acusadores, acusado de abortista.
IHU On-Line – Como entender que a opinião pública não coincide mais com a opinião publicada? Isso indica que tipo de mudança social?
Luiz Demétrio Valentini – Não é mais a grande imprensa que conduz o processo político. Alguns jornais armaram um esquema de denúncias para inviabilizar uma candidatura, de modo que tentaram, mas obtiveram resultados. Não foi por obra da grande imprensa que a candidatura Dilma diminuiu seu percentual. Dá para sentir que o povo brasileiro começa a formar a sua opinião a partir de fatos próximos e concretos que ele vivência. Quem está a favor da vida? Não são os que gritam contra o aborto e, sim, os que implementam políticas sociais que acabam beneficiando e trazendo mais dignidade para a vida das pessoas. Em termos econômicos, sociais e culturais, o povo está aprendendo a discernir a partir das realidades que ele percebe. Esse é um fato promissor.
Independente do resultado dessas eleições, penso que está indicado um trabalho de cidadania promissor: incentivar o povo a formar a sua opinião a partir, não do que dizem os grandes jornais, mas, a partir de experiências concretas que o povo experimenta e o onde ele se sente sujeito e, não mais, objeto de manobra política.
IHU On-Line – O senhor acredita mesmo que a grande imprensa perdeu o poder de criar opinião pública? O caso Erenice parece ter sido o responsável pela queda de Dilma na reta final?
Luiz Demétrio Valentini – Sem dúvida esse caso ainda conseguiu influenciar a candidatura de Dilma, sobretudo, a partir de situações concretas, visuais. Evidente, o jornal que denunciou tinha “boas intenções” e queria desestabilizar uma candidatura. A grande imprensa ainda é atora. Não sou contra a imprensa, pelo contrário, quanto mais se difunde a possibilidade de comunicação, mais ela está ao alcance da participação popular. A grande imprensa ainda tem a sua parcela de influência, mas não é mais a mesma que forma a opinião pública
IHU On-Line – E as pesquisas eleitorais interferem na formação de opinião e decisão de voto para muitos brasileiros?
Luiz Demétrio Valentini – São instrumentos importantes e indispensáveis, contanto que sejam feitos sem tendências. Foi clara a tentativa de, ao longo do processo eleitoral, apresentar estatísticas que favoreciam mais um candidato do que outro. Houve tentativa de distorcer o resultado das pesquisas, ainda mais quando há institutos de pesquisas que estão comprometidos com uma posição eleitoral.
IHU On-Line – Que fatos relevantes o senhor destaca nesta campanha eleitoral?
Luiz Demétrio Valentini – Penso que a presença da internet é um fator que não estava na contabilidade de ninguém, mas que está emergindo e traz sérias preocupações. Somente o exercício esclarecido da cidadania pode enfrentar os problemas suscitados por esse novo meio de comunicação que possibilita difundir largamente denúncias injustas. Não se trata de coibir, mas de neutralizar a informação com a apresentação de conteúdos verdadeiros, mostrando e desautorizando quem difunde inverdades, posições inventadas e acusações gratuitas.
IHU On-Line - O que leva o senhor a acreditar que estamos caminhando rumo a um processo político promissor no Brasil?
Luiz Demétrio Valentini – Questiono firmemente a tentativa de manipular o outro. O voto é um instrumento melhor, um aprimoramento democrático, quando o eleitor percebe que são eleitos aqueles indicados pelo voto. Por isso, toda a legislação deve fortalecer a liberdade do voto. De modo que, a prática democrática do voto é o melhor instrumento que temos. Precisamos batalhar para que as campanhas sejam oportunidade de esclarecimento da consciência dos eleitores. A batalha pelo voto é a grande batalha pela democracia.
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=37038
Recebi do meu amigo Julio Cesar de Manhumirim, o seguinte artigo com compartilho com voces.
''A CREDIBILIDADE DA CNBB ESTÁ SENDO COLOCADA EM XEQUE''. ENTREVISTA ESPECIAL COM DOM LUIZ DEMÉTRIO VALENTINI
“A credibilidade da CNBB está sendo colocada em xeque”, alerta Dom Luiz Demétrio Valentini, bispo da Diocese de Jales-SP, ao comentar o episódio de que a instituição teria aconselhado os católicos a não votarem na candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff. Em entrevista concedida, por telefone, à IHU On-Line, Dom Valentini esclarece que em torno do assunto “existe uma falácia que precisar ser desmontada”.
Para ele, o nome da CNNB foi invocado com posições “que não são dela (...) foi feito um estratagema para vincular opiniões pessoais de alguns bispos à imagem da CNBB”. Ele explica: “O equívoco maior se deu no Regional Sul I da CNBB: a presidência recomendou que todos lessem e, levassem em consideração, uma manifestação de duas comissões diocesanas, onde se manifestava, claramente, posições preconceituosas contra Dilma e o PT. A solicitação de que esse documento deveria ser levado em conta, comprometeu o posicionamento do Regional. Com isso, se criou a ambiguidade e o equivoco de que todo o Regional estava de acordo com esse posicionamento, o que não é verdade”.
A segunda falácia, aponta, é ainda mais difícil de ser compreendida. “O fato de lançar a condição de abortistas a todos aqueles que propõem políticas sociais que levem em conta a situação do aborto para melhorar a legislação e as providências para favorecer a vida e evitar situações de aborto”.
Na avaliação dele, instituição que “sempre marcou presença na realidade brasileira”, a CNBB deve se pronunciar diante deste fato, “esclarecendo que ela não tem posição partidária, não tem restrições a nenhum dos dois candidatos”.
Licenciado em Letras pela Faculdade de Palmas, no Paraná, Dom Valentini fez o curso de Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e foi ordenado presbítero em 1965. Foi professor no Centro Universitário de Erexim e na Universidade de Passo Fundo. Durante muitos anos foi pároco na diocese de Erexim, RS quando foi nomeado bispo de Jales, SP, em 1982. Durantes muitos anos foi responsável pelo Setor Pastoral Social da CNBB, período no qual se realizaram as Semanas Sociais Brasileiras. Atualmente é também presidente da Cáritas Brasileira.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – No primeiro turno, alguns bispos aconselharam a sociedade a não votar na candidata do PT, Dilma Rousseff. Qual a postura da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB nessa questão?
Luiz Demétrio Valentini – Esse é um assunto sério e merece muita atenção. Penso que a credibilidade da CNBB está sendo colocada em xeque. A CNBB, tradicionalmente, sempre marcou presença na realidade brasileira como uma entidade responsável que colaborou para a implantação da democracia no Brasil, ciente, claramente, da sua responsabilidade própria. Agora, corre o risco de ser mal interpretada por equívocos acontecidos por manobras em andamento. Existe uma espécie de falácia que precisa ser desmontada e esclarecida. Essa falácia consiste, em primeiro lugar, em invocar o nome da CNBB sobre posições que não são dela. Foram impressos milhares de folhetos com a mensagem: “CNBB proíbe católicos de votarem em Dilma, do PT”. Isso não é verdade. Foi feito um estratagema para vincular opiniões pessoais de alguns bispos à imagem da CNBB. O equívoco maior se deu no Regional Sul I da CNBB: a presidência recomendou que todos lessem e levassem em consideração uma manifestação de duas comissões diocesanas, onde se manifestava, claramente, posições preconceituosas contra Dilma e o PT. A solicitação de que esse documento deveria ser levado em conta comprometeu o posicionamento do Regional. Com isso, se criou a ambiguidade e o equivoco de que todo o Regional estava de acordo com esse posicionamento, o que não é verdade. Isso influenciou o resultado das eleições.
Outra falácia mais séria e difícil de ser compreendida foi o fato de lançar a condição de abortistas a todos aqueles que propõem políticas sociais que levem em conta a situação do aborto para melhorar a legislação e as providências para favorecer a vida e evitar situações de aborto. Foi montada uma acusação, a qual foi vinculada o voto dizendo que quem é católico não pode votar em quem é abortista. Quem disse que determinada pessoa é abortista? O próprio acusador se vê no direito de estabelecer alguém como abortista, sem levar em conta as ponderações que ele faz.
IHU On-Line – Qual o posicionamento da CNBB diante do segundo turno das eleições presidenciais?
Luiz Demétrio Valentini – Enviei um apelo à CNBB. Estou aguardando um pronunciamento da presidência da CNBB. Fiz questão de ressaltar a Dom Geraldo Lyrio Rocha, presidente da CNBB, que se fazia necessária uma clara tomada de decisão da presidência, esclarecendo que ela não tem posição partidária, não tem restrições a nenhum dos dois candidatos, de modo que se torna urgente enfatizar a posição de neutralidade em termos de opções partidárias e eleitorais. Espero que esse pronunciamento seja feito ainda hoje (6-10-2010) e coloque com muita evidência que a posição da presidência do Regional Sul I da CNBB foi fruto de um equívoco, que, me parece, deveria ser esclarecido pelos próprios autores que elaboraram a declaração.
IHU On-Line – Como percebe o posicionamento de Dilma em relação ao aborto? Ela está tratando o tema de maneira diferente no segundo turno?
Luiz Demétrio Valentini – Penso que ela demorou a se dar conta da gravidade das acusações que eram feitas contra ela e da complexidade do assunto. Percebo que ela tem convicção de que o aborto é um problema de saúde e que não se reduz a isso. Então, deveria ter manifestado de maneira mais enfática o reconhecimento da defesa da vida desde a sua fecundação, como a Igreja afirma. Ela precisava perceber melhor a causa que está em jogo. Dilma tem a oportunidade de esclarecer melhor o seu posicionamento no segundo turno.
IHU On-Line – O que diferencia o posicionamento de Dilma e Serra em relação ao aborto?
Luiz Demétrio Valentini – Serra, como Ministro da Saúde, referendou medidas concretas de prática do aborto. De modo que, aqueles que de maneira tão enfática acusam a Dilma de abortista, deveriam se dar conta de que o outro candidato também teve um posicionamento, o qual pode ser, de acordo com o rigor dos acusadores, acusado de abortista.
IHU On-Line – Como entender que a opinião pública não coincide mais com a opinião publicada? Isso indica que tipo de mudança social?
Luiz Demétrio Valentini – Não é mais a grande imprensa que conduz o processo político. Alguns jornais armaram um esquema de denúncias para inviabilizar uma candidatura, de modo que tentaram, mas obtiveram resultados. Não foi por obra da grande imprensa que a candidatura Dilma diminuiu seu percentual. Dá para sentir que o povo brasileiro começa a formar a sua opinião a partir de fatos próximos e concretos que ele vivência. Quem está a favor da vida? Não são os que gritam contra o aborto e, sim, os que implementam políticas sociais que acabam beneficiando e trazendo mais dignidade para a vida das pessoas. Em termos econômicos, sociais e culturais, o povo está aprendendo a discernir a partir das realidades que ele percebe. Esse é um fato promissor.
Independente do resultado dessas eleições, penso que está indicado um trabalho de cidadania promissor: incentivar o povo a formar a sua opinião a partir, não do que dizem os grandes jornais, mas, a partir de experiências concretas que o povo experimenta e o onde ele se sente sujeito e, não mais, objeto de manobra política.
IHU On-Line – O senhor acredita mesmo que a grande imprensa perdeu o poder de criar opinião pública? O caso Erenice parece ter sido o responsável pela queda de Dilma na reta final?
Luiz Demétrio Valentini – Sem dúvida esse caso ainda conseguiu influenciar a candidatura de Dilma, sobretudo, a partir de situações concretas, visuais. Evidente, o jornal que denunciou tinha “boas intenções” e queria desestabilizar uma candidatura. A grande imprensa ainda é atora. Não sou contra a imprensa, pelo contrário, quanto mais se difunde a possibilidade de comunicação, mais ela está ao alcance da participação popular. A grande imprensa ainda tem a sua parcela de influência, mas não é mais a mesma que forma a opinião pública
IHU On-Line – E as pesquisas eleitorais interferem na formação de opinião e decisão de voto para muitos brasileiros?
Luiz Demétrio Valentini – São instrumentos importantes e indispensáveis, contanto que sejam feitos sem tendências. Foi clara a tentativa de, ao longo do processo eleitoral, apresentar estatísticas que favoreciam mais um candidato do que outro. Houve tentativa de distorcer o resultado das pesquisas, ainda mais quando há institutos de pesquisas que estão comprometidos com uma posição eleitoral.
IHU On-Line – Que fatos relevantes o senhor destaca nesta campanha eleitoral?
Luiz Demétrio Valentini – Penso que a presença da internet é um fator que não estava na contabilidade de ninguém, mas que está emergindo e traz sérias preocupações. Somente o exercício esclarecido da cidadania pode enfrentar os problemas suscitados por esse novo meio de comunicação que possibilita difundir largamente denúncias injustas. Não se trata de coibir, mas de neutralizar a informação com a apresentação de conteúdos verdadeiros, mostrando e desautorizando quem difunde inverdades, posições inventadas e acusações gratuitas.
IHU On-Line - O que leva o senhor a acreditar que estamos caminhando rumo a um processo político promissor no Brasil?
Luiz Demétrio Valentini – Questiono firmemente a tentativa de manipular o outro. O voto é um instrumento melhor, um aprimoramento democrático, quando o eleitor percebe que são eleitos aqueles indicados pelo voto. Por isso, toda a legislação deve fortalecer a liberdade do voto. De modo que, a prática democrática do voto é o melhor instrumento que temos. Precisamos batalhar para que as campanhas sejam oportunidade de esclarecimento da consciência dos eleitores. A batalha pelo voto é a grande batalha pela democracia.
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=37038
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