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sábado, 3 de setembro de 2016

CHAMADOS A SER GUARDIÕES DA CRIAÇÃO

NOTA DO BLOG: Papa Francisco vem mais uma vez manifesta sua preocupação com toda a casa, ou seja, planeta Terra. então penso que todos somos os "Guardiões da Criação". Por isso fortalecer as ações em prol do desenvolvimento sustentável colocando a vida toda e toda forma de vida em primeiro lugar é urgente em tempos de aquecimento global.

O cuidado com a Casa Comum

Faustino Teixeira


O dia primeiro de setembro de 2016 veio marcado por um belo gesto de papa Francisco, na mensagem que enviou ao mundo celebrando o dia mundial de oração pelo cuidado da criação[1]. No singelo e corajoso documento de Francisco o “ato de fé pelo planeta”, na expressão cunhada por Paula Ferreira em artigo publicado no O Globo (02/09/2016).

É um texto que nos convoca para a urgente vocação de “guardiões da criação”. O que vemos por todo lado, nesse tempo do antropoceno, é uma “exploração irresponsável do planeta”, onde os mais vulneráveis são os “pobres do mundo”. Dentre as irradiações letais, o violento aquecimento do planeta, que em 2015 atingiu um auge inusitado. Como diz Francisco, “as mudanças climáticas contribuem também para a dolorosa crise dos migrantes forçados”.

Em linha de sintonia com a ecologia integral, Francisco reitera a nota que vem sublinhando desde a encíclica Laudato si ( maio de 2015)[2], em torno da profunda ligação que irmana os seres humanos entre si e com a criação. O ataque à natureza traduz, sem dúvida, um ataque ao ser humano. Em verdade, “cada criatura tem o seu próprio valor intrínseco que deve ser respeitado”. É uma reflexão que vem corroborar toda uma linha de pesquisa presente hoje na antropologia, que rebate a cisão tradicional entre natureza e cultura. A sociedade e o ambiente não são realidades descoladas, mas intimamente entrelaçadas numa rede de vida e criação. Os humanos, ao contrário do que se propagou no Ocidente pós-cartesiano, não são o “umbigo do mundo”,  mas “parte do vivente”. Estão envolvidos na textura do mundo. Não estão aí apenas para ocupar o mundo, mas para habitá-lo com respeito e cuidado. Tudo aquilo que vem brindado com o toque da vida sinaliza um movimento de ressonância fundamental. O espaço da criação é um espaço de movimento: tudo vem marcado pela fragrância da vida, deixando trilhas abertas e interativas. O meio ambiente, como tão bem mostrou Tim Ingold, é “em primeiro lugar, um mundo no qual vivemos, e não um mundo para o qual olhamos”.

A mensagem de Francisco traduz uma preocupação que é comum a muitas lideranças religiosas de tradições distintas, como o Patriarca Ecumênico Bartolomeu, que em novembro de 1997 dizia em discurso na Califórnia que o ardor destrutivo do ser humano diante da biodiversidade traduz um “pecado contra Deus”. Assim também o suave monge do Vietnã, Thich Nhat Hanh, em Carta de amor à mãe terra (2013), insiste sobre o traço vivo da Terra e a dimensão de co-pertença do humano a este “belíssimo e generoso planeta”. Não pode haver sentimento de separação, pois tudo que advém de nós e que nos alcança de fora provém da Terra. Ela não é simplesmente o ambiente em que vivemos, mas tecido que anima a nossa existência: nós somos Terra.

Em sua ardente mensagem, Francisco convoca a um exame de consciência, a “consciência amorosa de não estar  separado das outras criaturas, mas de formar com os outros seres do universo uma estupenda comunhão universal”. Há um toque de graça em sua reflexão, ao indicar com vitalidade o mundo como um “dom recebido do amor do Pai”. Um exame de consciência que envolve uma mudança radical de rumo e o deixar-se habitar por uma espiritualidade da criação. De fato, como diz Francisco, “o cuidado da natureza faz parte dum estilo de vida que implica capacidade de viver juntos e de comunhão”. E na sequência de sua reflexão, um dado novidadeiro com a inserção do cuidado da casa comum como um complemento atual e urgente das tradicionais obras de misericórdia. E porque ? Em razão da misericórdia ter por objeto “a própria vida humana na sua totalidade”.

Esse cuidado da casa comum requer de todos uma nova dinâmica contemplativa. Já dizia Francisco na Laudato si que “todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por nós. O solo, as águas, as montanhas: tudo é carícia de Deus” (LS 84). Tudo vem permeado por um Mistério que pode ser contemplado de diversas formas: “Há um mistério a contemplar em uma folha, em uma vereda, no orvalho, no rosto do pobre” (LS 233). Em sua mensagem de setembro de 2016, Francisco fala da “grata contemplação do mundo”, do cuidado essencial que acontece nos “simples gestos do cotidiano”, que rompem com “a lógica da violência, da exploração, do egoísmo”.

Francisco assim assinala uma espiritualidade alternativa, pontuada pela qualidade de vida, pelo entusiasmo inter-relacional. Trata-se de uma espiritualidade que gera e irradia alegria, que nasce de um mundo interior atuado, tocado pela dinâmica da simplicidade; de um mundo interior capaz de alegrar com pouco, pois marcado pela convicção de que “quanto menos, tanto mais”. O segredo está nesse cultivo da vida interior, que faz gerar um equilíbrio singular e que propicia a recuperação da “harmonia serena com a criação”. Há uma familiaridade única entre a paz interior e o cuidado da ecologia (LS 225).

segunda-feira, 20 de julho de 2015

AÇÃO DO MOVIMENTO CATÓLICO PELO CLIMA

Movimento Católico pelo Clima promove petição e recebe apoio do Papa Francisco

Com vistas à publicação recente pelo Papa Francisco da encíclica ecológica "Laudato Si’" [Louvado Sejas] O Movimento Católico Global pelo Clima (MCGC) está promovendo aPetição Católica do Clima. O objetivo é coletar pelo menos 1 milhão de assinaturas nos próximos cinco meses para serem apresentadas aos governos reunidos na COP21, cúpula da ONU [Organização das Nações Unidas] sobre o Clima, em Paris, para que resolvam, de uma vez por todas, os problemas relacionados à mudança climática e se comprometam com os mais pobres e vulneráveis. O Papa Francisco apoiou a petição há algumas semanas atrás, no Vaticano.
Papa Francisco é informado sobre a Petição Católica pelo Clima por representantes do MCGC (Tomás Insua, da Argentina, e Allen Ottaro, do Quênia)


A COP21 acontecerá em dezembro de 2015, na qual líderes mundiais se reunirão com o objetivo de firmar um tratado para combater a mudança do clima. Por meio da petição o MCGC insta os líderes políticos a assumirem compromissos "ambiciosos” para resolver a urgente crise climática mundial, de modo a impedir que a temperatura global suba mais do que 1,5° C em relação aos níveis pré-industriais.
Na "Laudato si’”, o Papa alerta as pessoas a cuidarem da "casa comum” em todas as suas dimensões. Ele estabelece uma "relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta’, retomando o tema da economia e da política, que devem servir ao bem comum e criar as condições de uma plenitude humana possível.
Com isso, o MCGC busca concretizar os desafios propostos pela Igreja na perspectiva da Ecologia Integral e despertar consciência em relação à mudança climática. O Movimento é uma coalizão internacional de organizações e pessoas de várias nações, continentes, e estilos de vida, que encorajam a renovação da relação das pessoas com a criação divina, pelas atuais e futuras gerações.
Apoio do Papa
O Papa Francisco endossou a Petição Católica pelo Clima após um encontro recente com um grupo de representantes do MCGC, no Vaticano. A Petição coleta assinaturas de católicos/as ao redor do mundo para exigir medidas ousadas em favor do clima. As assinaturas coletadas serão apresentadas aos líderes mundiais, em dezembro de 2015, na COP21.
"O Papa Francisco manifestou apoio ao trabalho que estamos fazendo para engajar católicos/as ao redor do mundo numa resposta coordenada contra a mudança do clima”, disse Tomás Insua, um dos co-fundadores do MCGC, da Argentina. "Francisco até brincou dizendo que estamos competindo com a sua encíclica. O endosso dele ao nosso trabalho é muito importante para incentivar a conscientização nos círculos católicos globalmente, assim como para conseguirmos mais assinaturas”.
O Papa Francisco pediu ao Monsenhor Guillhermo Karcher, membro do cerimonial pontifício, que assinasse a petição em seu nome, de modo a demonstrar seu endosso (já que em razão do protocolo papas não assinam petições).
O Papa também deu ao MCGC o livro "Energia Solar no Vaticano”, para enfatizar o compromisso da Santa Sé com a energia renovável, como meio de resposta à crise climática.

"O apoio do Papa Francisco à petição é muito importante, pois a mudança do clima é um problema moral, grave e urgente”, disse Allen Ottaro, diretor da organização Cynesa, baseada no Quênia, e co-fundador do MCGC. "A mudança do clima atinge os pobres mais rapidamente e com maior virulência e pode deixar um legado desnecessariamente ruim para as futuras gerações. Nós católicos precisamos levantar o tom contra a mudança do clima, exigindo dos líderes políticos providências urgentes”.

FONTE: Leia o artigo na íntegra, incluindo links interessantes em: ADITAL

segunda-feira, 13 de julho de 2015

PAPA FRANCISCO COM OS JOVENS DO PARAGUAI


Papa Francisco com os jovens do Paraguai (texto integral)

Papa Francisco abraça um jovem paraguaio durante o encontro com os jovens - AFP
13/07/2015 09:20
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O Papa Francisco esteve com os jovens do Paraguai naquele que foi o seu último grande encontro naquele país. O Santo Padre falou de improviso e entregou o texto que tinha preparado e que agora aqui publicamos aos bispos do Paraguai:

(Paraguai, Asunción – Litoral Costeiro, 12 de Julho de 2015)

Queridos jovens!

Enche-me de alegria poder encontrar-me convosco, neste clima de festa. Poder ouvir os vossos testemunhos e partilhar o vosso entusiasmo e amor a Jesus.
Obrigado, D. Ricardo Valenzuela, responsável da pastoral juvenil, pelas suas palavras! Obrigado, Manuel e Liz, pela coragem de partilhardes as vossas vidas, oferecendo o vosso testemunho neste encontro. Não é fácil falar das nossas coisas pessoais, e menos ainda diante de tantas pessoas. E vós partilhastes o tesouro maior que tendes: as vossas vicissitudes, as vossas vidas e como Jesus, pouco a pouco, entrou nelas.
Para responder às vossas perguntas, gostaria de realçar algumas das coisas que partilhastes.
Manuel, falaste mais ou menos assim: «Hoje tenho desejos, de sobra, de servir os outros; tenho vontade de me vencer». Passaste por momentos muito difíceis, situações muito dolorosas, mas hoje tens grande desejo de servir, de sair, de partilhar a tua vida com os outros.
Liz não é nada fácil ser mãe dos próprios pais, sobretudo quando se é jovem, mas que grande sabedoria e maturidade encerram as tuas palavras, quando nos dizias: «Hoje jogo com ela, mudo-lhe as fraldas… Coisas todas, que hoje ofereço a Deus; e estou apenas compensando o que mãe fez por mim».
Vós, jovens paraguaios, sois corajosos de verdade.
Partilhastes também como conseguistes continuar; onde encontrastes forças. Na paróquia – dissestes ambos –, nos amigos da paróquia e nos retiros espirituais que lá se organizavam. Duas chaves muito importantes: os amigos e os retiros espirituais.
Os amigos. A amizade é um dos presentes maiores que uma pessoa, um jovem pode ter e pode oferecer. É verdade! Como é difícil viver sem amigos. Vede se esta não é uma das coisas mais belas que Jesus disse: «Chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai» (Jo 15, 15). Um dos maiores segredos do cristão radica-se no facto de ser amigo, amigo de Jesus. Quando uma pessoa ama alguém, permanece ao seu lado, cuida dele, ajuda-o, diz-lhe o que pensa, mas sem o deixar caído por terra. Assim faz Jesus connosco, nunca nos deixa caídos por terra. Os amigos apoiam-se, fazem-se companhia, protegem-se. Assim procede o Senhor connosco. Serve-nos de apoio.
Os retiros espirituais. Santo Inácio tem uma meditação famosa, chamada das duas bandeiras. Descreve, por um lado, a bandeira do demónio e, por outro, a bandeira de Cristo. Seria como as camisas de duas equipes; e pergunta-nos, em qual delas gostaríamos de jogar.
Com aquela meditação, leva-nos a imaginar como seria pertencer a uma ou a outra equipe. Seria como perguntar: Com quem queres jogar na vida?
E Santo Inácio diz que o demónio, para recrutar jogadores, promete àqueles que jogam com ele riqueza, honras, glória e poder. Serão famosos. Serão endeusados por todos.
No lado oposto, apresenta-nos o jogo de Jesus. Não como algo fantástico. Jesus não nos apresenta uma vida de “estrelas”, famosos; pelo contrário, jogar com Ele é um convite à humildade, ao amor, ao serviço aos outros. Jesus não nos mente. Toma-nos a sério.
Na Bíblia, o demónio é chamado o pai da mentira. Ele prometia ou, melhor, fazia-te crer que, se fizesses certas coisas, serias feliz; mas depois dás-te conta de que não és nada feliz; foste atrás de algo que, longe de te dar a felicidade, fez-te sentir mais vazio, mais triste. Amigos, o diabo, é um «vende fumaça». Promete-te, promete-te, mas não te dá nada, nunca cumpre nada do que diz. É um mau pagador. Faz-te desejar coisas que não depende dele que tu as obtenhas ou não. Faz-te depositar a esperança em algo, que nunca te fará feliz. Este é o seu jogo, esta é a sua estratégia: falar muito, oferecer muito e não fazer nada. É um grande «vende fumaça», porque tudo o que nos propõe é fruto da divisão, de nos compararmos com os outros, de pisar a cabeça aos outros para conseguirmos as nossas coisas. É um «vende fumaça», porque o único caminho para alcançar tudo isto é pôr de lado os teus amigos, não dar apoio a ninguém. Porque tudo se baseia na aparência. Faz-te crer que o teu valor depende de quanto possuis.
Do lado contrário, temos Jesus que nos oferece o seu jogo. Não nos vende fumaça; não nos promete, aparentemente, grandes coisas. Não nos diz que a felicidade está na riqueza, no poder, no orgulho. Antes pelo contrário, mostra-nos que o caminho é outro. Este Treinador diz aos seus jogadores: bem-aventurados, felizes os pobres em espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que trabalham pela paz, os perseguidos por causa da justiça. E conclui dizendo: Alegrai-vos com tudo isto.
Por que motivo? Porque Jesus não nos mente. Mostra-nos um caminho que é vida, que é verdade. Ele mesmo é a grande prova disso. É o seu estilo, a sua maneira de viver a existência, a amizade, a relação com o seu Pai. E a isto nos convida: a sentirmo-nos filhos, filhos amados.
Jesus não te vende fumaça. Porque sabe que a felicidade verdadeira, a felicidade que enche o coração não está nos trapos que vestimos, nos sapatos que calçamos, na etiqueta de determinada marca. Ele sabe que a verdadeira felicidade encontra-se em sermos sensíveis, em aprender a chorar com os que choram, em aproximar-se de quem está triste, em deixar chorar sobre o próprio ombro, dar um abraço. Quem não sabe chorar, não sabe rir e, consequentemente, não sabe viver. Jesus sabe que, neste mundo de tanta concorrência, inveja e agressividade, a verdadeira felicidade passa por aprender a ser pacientes, a respeitar os outros, a não condenar nem julgar ninguém. Quem se irrita já perdeu: diz o ditado. Não abandoneis o vosso coração à ira, ao rancor. Felizes os que têm misericórdia. Felizes os que sabem colocar-se no lugar de outro, os que têm a capacidade de abraçar, de perdoar. Todos experimentámos isto alguma vez. Todos, em determinados momentos, nos sentimos perdoados: como é bom! É como reaver a vida, ter uma nova oportunidade. Não há nada mais belo do que ter nova oportunidade. É como se a vida voltasse a começar. Por isso, felizes aqueles que são portadores de nova vida, de novas oportunidades. Felizes quantos trabalham para isso, aqueles que lutam para isso. Erros, todos cometemos; as equivocações, não têm conta. Por isso, felizes aqueles que são capazes de ajudar os outros a sair dos seus erros, das suas equivocações. São verdadeiros amigos e não deixam ninguém caído por terra. Estes são os puros de coração, aqueles que, conseguindo ver mais além da simples nódoa, superam as dificuldades. Felizes aqueles que se fixam especialmente na parte boa dos outros.

Liz, tu nomeaste Chikitunga, uma Serva de Deus paraguaia. Disseste que era como tua irmã, tua amiga, teu modelo. Ela, como muitos outros, mostra-nos que o caminho das Bem-aventuranças é um caminho de plenitude, um caminho possível, real; que enche o coração. Os Santos são nossos amigos e modelos que já deixaram de jogar neste campo, mas transformaram-se naqueles jogadores indispensáveis para quem sempre se olha a fim de darmos o melhor de nós mesmos. Eles são a prova de que Jesus não é um «vende fumaça», mas que a sua proposta é mesmo de plenitude. Acima de tudo, é uma proposta de amizade: amizade verdadeira, amizade de que todos precisamos. Amigos, segundo o estilo de Jesus. Não para ficarmos entre nós, mas sair pelo campo, ir fazer mais amigos. Para contagiar com a amizade de Jesus toda a gente, onde quer que esteja, no trabalho, no estudo, na noitada, por whastapp, no facebook ou no twitter. Quando saem para dançar, ou estão a tomar um bom tereré. Na praça ou jogando uma partida no campo do bairro. É aí que estão os amigos de Jesus. Não vendendo fumaça, mas dando apoio; o apoio de saber que somos felizes, porque temos um Pai que está no Céu.

sexta-feira, 14 de março de 2014

O PAPA FRANCISCO DEPOIS DE UM ANO

A primavera irrompeu: o Papa Francisco depois de um ano
14/03/2014
Esta entrevista foi publicada originalmente no DW Brasil.
Em 13 de março de 2013, Francisco foi eleito papa. E em apenas um ano à frente do Vaticano, colocou em discussão uma série de assuntos antes deixados de lado pela Igreja, dando início a um processo de transformação da instituição e do papel do pontífice.
Em entrevista à DW, Leonardo Boff, um dos expoentes da Teologia da Libertação e um dos principais críticos do conservadorismo católico, diz que Francisco tornou a Igreja mais viva ao fazer uma reforma do papado.
“Francisco não vestiu o figurino clássico do ‘papa monarca’ com o primado jurídico absoluto e com a supremacia doutrinal e pastoral”, afirma Boff, que em 1992 deixou todos os cargos na Igreja, após ser censurado pelo Vaticano. “Ele mudou o clima. Antes o ambiente era severo e sombrio.”

DW: O que mudou na Igreja Católica no Brasil um ano depois que o papa Francisco foi eleito?
Leonardo Boff: Ele mudou o clima, o que não é pouco. Há alívio porque a Igreja como instituição era vista como um pesadelo. Há alegria, pois antes o ambiente era severo e sombrio. O que se percebe é que muitos padres e bispos se tornaram mais acessíveis ao povo, mais tolerantes, menos doutrinários. O arcebispo do Rio, Dom Orani Tempesta, ao ir a Roma para receber o chapéu cardinalício, viajou de classe econômica para seguir o exemplo do cardeal Bergoglio, que sempre viajava assim. Mas talvez seja cedo demais para ter uma impressão mais precisa das modificações nos hábitos dos padres e dos cristãos.

Com o papa, a Teologia da Libertação pode ressurgir das cinzas?
Ela nunca esteve nas cinzas porque a opressão continua e os cristãos conscientes se orientavam pela Teologia da Libertação para dar sentido às suas práticas. Os teólogos continuaram a publicar, apesar da vigilância severa do cardeal Ratzinger, que se fez inimigo da inteligência dos pobres.
Esse é o peso que ele carregará pela história. Roma tentou por todas as formas liquidar com este tipo de teologia, mas saiu frustrada, pois o teor evangélico da Teologia da Libertação depunha contra Roma, que se mostrava indiferente face ao drama dos pobres. Fala dos pobres, mas nunca quer encontrá-los fisicamente.

 Qual foi o papel da Teologia depois que Francisco assumiu o Vaticano?
Com o novo papa ela ganhou centralidade, pois ele colocou a questão da justiça social e da igreja pobre para os pobres no centro das preocupações de seu pontificado. Ele vai ao encontro dos pobres, abraça-os e beija-os porque são, segundo suas palavras, “a carne de Cristo”. Ao receber em audiência no dia 11 de setembro de 2013 Gustavo Guiérrez, um dos fundadores desta teologia, e em seguida o pequeno irmão de Jesus Arturo Paoli, de 102 anos, que trabalhou durante 45 anos na linha da libertação na América Latina, o papa deu sinais claros de que quer prestigiar e até resgatar a Teologia da Libertação.

O papa quer prestigiar e aumentar o poder dos leigos porque a falta de padres no continente é grave. Já há sinais de quais serão esses novos poderes? Eles poderão celebrar a eucaristia ou outros sacramentos?
A categoria central da visão de Igreja que o papa representa é a “Igreja como povo de Deus”. Todos pertencem a este povo, que é constituído principalmente por leigos, homens e mulheres. O papa quer que os leigos, especialmente as mulheres, participem das decisões da Igreja e não apenas participem da vida da Igreja. A forma como o fará não sabemos. Sabemos apenas que ele é surpreendente e que coisas novas poderão ser esperadas, inclusive a nomeação de mulheres como cardeais, já que “cardeal” é na tradição um título, desvinculado do sacramento da Ordem.
Não é preciso ser padre ou bispo para ser cardeal. Não creio que ele permitirá que leigos celebrem eucaristias, pois seria um passo demasiadamente ousado. Mas como ocorre nas comunidades eclesiais de base nas quais não está presente um padre, ritualiza-se e dramatiza-se a ceia do Senhor. Eu creio, como teólogo, que tal prática é uma forma de trazer sacramentalmente Cristo para o seio da comunidade.

Qual a contribuição que a Igreja da America Latina poderia dar para as reformas do Vaticano?
A maior contribuição que a América Latina está dando à reforma do Vaticano é a pessoa do papa Francisco. Ele não começou com a reforma da Cúria, mas com a reforma do papado. Ele não vestiu o figurino clássico do “papa monarca” com o primado jurídico absoluto e com a supremacia doutrinal e pastoral. Ele se entende com bispo de Roma e quer presidir na caridade.
É importante observar que esse papa cresceu dentro do caldo cultural e eclesial da Igreja latino-americana, cujo rosto é muito diferente da Igreja da velha cristandade europeia. É uma Igreja viva, com comunidades de base, com pastorais sociais fortes, com figuras de bispos proféticos e com mártires da perseguição das ditaduras militares.

Que características o papa Francisco trouxe para o pontificado?
Ele traz ao Vaticano hábitos novos, evangélicos e proféticos. Ele se entende como um homem comum que gosta de estar junto com outros homens comuns, partilhando de suas buscas e perplexidades. Mais que ensinar, ele quer aprender no diálogo e na convivência. Estes traços pastorais são típicos da maioria dos bispos da América Latina. Com isso ele está resgatando o rosto humanitário, misericordioso e afável da severa institucionalidade da Igreja. Penso que ele será o primeiro de muitos papas que virão do terceiro mundo, pois aqui vive a maioria dos católicos.

Na sua opinião, qual seria a reforma mais importante que a Igreja Católica teria de fazer?
Eu creio que haverá uma nova forma de direção da Igreja, não mais monárquica, mas colegial. Quer dizer, o papa não dirigirá a Igreja sozinho, mas com um colégio de cardeais, bispos, leigos e mulheres. Ele insinuou claramente isso dizendo que deve haver mais corpos de decisão na Igreja junto com ele.

O Brasil ou a América Latina poderiam ser pioneiros em alguma delas?
Na América Latina temos acumulado boas experiências de pastoral de conjunto, seja no nível nacional, seja no continental. Quanto ao celibato, já foi dito que não é uma questão fechada como o era no tempo de João Paulo 2º, que proibia sequer levantar tal questão. A meu ver o caminho será mais ou menos este: primeiro convidará os cem mil padres casados do mundo inteiro que possam, e que queiram, para reassumir o ministério.
Este seria o primeiro passo. Em seguida permitiria o celibato opcional. Não haveria mais a lei do celibato obrigatório. Para este papa a Igreja é de todos, especialmente daqueles que foram postos de lado. A Igreja é uma casa aberta para todos. Todos podem entrar sem prévias condições.

O sr. estaria disposto a assumir um cargo de liderança nesse processo de reformas?
Não espero nem pretendo ter nenhuma função na Igreja. Basta-me a palavra livre.


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

IGREJA POBRE E MISSIONÁRIA CONTRA A OSTENTAÇÃO




Passou quase um ano desde a eleição de Jorge Bergoglio ao sólio de Pedro, e agora toda a Igreja tem confiança nele, os fiéis sobretudo, pela sua grande capacidade de comunicador, pela sua abertura ao diálogo, pelas suas imagens de uma Igreja pobre e missionária, pela sua fé no Deus misericordioso para com todos.
Leia o artigo na íntegra em:
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/528486-a-revolucao-de-francisco-contra-os-mandarins-do-vaticano-artigo-de-eugenio-scalfari#.UwY8LMHHGio.facebook

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O MÉTODO ENERGÉTICO DO PAPA FRANCISCO

NOTA DO BLOG: Mais uma vez conto com o meu amigo de Petrolina, Júlio Maria, que compartilhou em sua conta no Facebook, um artigo de interesse por todos nós, católicos e cristãos, que interessamos pelos destinos de nossa Igreja na limitada história humana.
Sem dúvida, o Papa Francisco vem propondo reformas na Igreja para transformá-la em uma Igreja acolhedora, missionária e sobretudo uma Igreja Profética em tempos de um mundo mediocrizado pela mídia.

O texto é da Revista IHU (Instituto Humanitas Unisinos) na sua edição on-line.
REVISTA IHU

Quarta, 12 de fevereiro de 2014
O método enérgico do papa para reformar a Cúria
Paralelamente aos trabalhos do G8 dos cardeais, encarregado pelo papa de uma reorganização da Cúria e de uma abordagem atenta aos dossiês mais ardentes (por exemplo, o acesso aos sacramentos por parte dos divorciados em segunda união) e que deverá se reunir novamente no Vaticano entre os dias 17 e 19 de fevereiro, está se realizando uma verdadeira revolução cultural. Além de qualquer divisão ideológica (progressistas/conservadores), ela diz respeito principalmente à lógica de poder em curso na cúpula da Igreja. Fortalecido pela sua autoridade reconhecida pela "base" (os fiéis, mas também a opinião pública mundial), o papa bate forte e em todas as direções.

A reportagem é de Jean Mercier, publicada na revista La Vie, 04-02-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O papa decidiu não se deixar guiar por um gabinete formado por conselheiros técnicos devidamente homologados. Negligenciando os organismos intermediários da Cúria, criou uma espécie de rede paralela em que se apoia para tomar decisões.

"As engrenagens da Cúria estão paralisadas. Aqueles que sabiam como fazer para mover as peças certas e obter o que queriam estão agora totalmente desorientados", confidencia uma testemunha.

Francisco governa a partir de um lugar aberto, propício aos encontros e às trocas, que é a Casa Santa Marta, onde pode encontrar prelados e cardeais de passagem por Roma, misturando encontros formais com conversas informais. Recusou que fosse a Secretaria de Estado que lhe fixasse os compromissos e impôs as suas regras.

Distanciamento da confusão italiana

Francisco expressou a sua vontade de cortar as relações, muitas vezes adúlteras, da classe política italiana com a Santa Sé. Dito claramente, o papa não deseja mais ser explorado, nem se misturar com as questões italianas, às vezes nojentas (Berlusconi havia recebido oficialmente a bênção do Vaticano...). A ruptura é violenta e leva a pensar na reforma gregoriana de nove séculos atrás, quando diversos papas tentaram libertar a Igreja da opressão do poder temporal.

O papa também quer desacostumar a própria Igreja italiana da sua dependência incestuosa do Vaticano. A ambição é colossal, porque a Igreja italiana sempre considerou que a Cúria (em sentido amplo) fosse o seu terreno de caça, o lugar de reciclagem de eclesiásticos pouco apreciados ou atingidos por escândalos, um pouco o maquinário para sistematizar os "protegidos" dos bispos.

A ruptura é notável. De fato, a Igreja italiana, na sua relação com uma sociedade em plena secularização, precisava de um sólido vínculo com o Vaticano para se sentir sob ataque. Se Francisco cortar o cordão umbilical, o episcopado italiano será reenviado às suas lutas internas e às suas fragilidades. No entanto, o papa (de origem piemontesa) não cai em um anti-italianismo visceral.

Valorizar o profissionalismo contra carreirismo

"Chega de um Vaticano em que, para se tornar cardeal e chefe de dicastério, era preciso escalar a estrutura graças a eventos propícios. Francisco não se opõe à promoção interna, mas ela deve se basear em competências verdadeiras", explica uma pessoa próxima ao papa. Para governar, Francisco escolhe um modo contrário ao de uma lógica de nomeações baseada no "afetivo" ou na "subida de elevador", que permitiu que pessoas inadequadas ocupassem postos-chave.

Para explicar a lógica do carreirismo, o papa enviou uma mensagem forte. Decidiu restringir drasticamente a concessão de títulos de "monsenhor" aos padres das dioceses de todo o planeta, que lhes permitia ser valorizados mesmo sem ser elevados ao cargo episcopal de forma sacramental. De agora em diante, tal título honorífico será concedido apenas a padres com mais de 65 anos (e não 35, como antes). Embora esse novo regulamento não se aplique à Cúria, nem aos vigários gerais das dioceses, é um sinal claro de que não se deve se tornar padre para obter medalhas.

O rebaixamento não é mais tabu

Bastaram poucas nomeações para que o papa fizesse entrar em colapso a lógica institucional que prevalecia até então, segundo a qual uma nomeação insignificante ou um exílio podiam ser apresentados como uma promoção altissonante, para permitir que o interessado salvasse a sua honra. Agora, certos eclesiásticos foram rebaixados urbi et orbi.

Além disso, o papa confirmou apenas um número restrito dos seus colaboradores nos dicastérios. Os outros esperam manter ainda o seu "posto indeterminado", como antes do conclave. Alguns tremem, temendo perder o seu status, por ocasião de unificações de pontifícios conselhos, por exemplo o dos leigos e o da família.

O papa não tem nenhum problema em "despedaçar" o ego de certos carreiristas. "O rebaixamento é uma arma posta a serviço de um duplo imperativo: sair de uma lógica de impunidade para aqueles que fracassaram mas que pensam em continuar subindo; e, acima de tudo, mostrar que o papa não tem medo de fazer inimigos e, por sua vez, de ser atingido. O que reforça a sua autoridade aos olhos de todos...", é a interpretação de um especialista.

Impor o critério do serviço

Sem dúvida, o tipo de gestão de Francisco também se baseia na sua experiência da vida religiosa, adquirida na Companhia de Jesus. Eleito por um ou mais mandatos, a pessoa investida do mais alto cargo em uma congregação, volta para a base em seguida, como um entre os demais. Jorge Mario Bergoglio viveu isso, depois de ter dirigido, por anos, a província jesuíta da Argentina. Esse modo de entender o poder se opõe à lógica ascensional praticada nas estruturas diocesanas. Ela havia sido levada ao extremo pelo Pobrezinho de Assis, quando ele criara a ordem franciscana, como explica Jacques Dalarun, no seu livro Gouverner c'est servir. "Essa inversão na relação com o poder levaria anos antes de ser realmente dominante no Vaticano", adverte uma pessoa que se encontra frequentemente com o papa.

"Certamente, Francisco está usando táticas de força. Mas as mentalidades precisam de muito tempo para se converter. Duvido que, para conseguir isso, baste apenas um pontificado".



terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O DNA PASTORAL DO PAPA FRANCISCO

Esse interessante artigo de Umberto Eco traz um ponto de vista sobre o Papa Francisco. Fazer o elo entre o
jesuíta e a história dos Jesuítas na América Latina é sobretudo valorizar o vai e vem da história. Compartilho esse artigo por entender que ele ajuda na nossa formação cristã e na contextualização da Igreja Católica a partir desse novo papado.

ARTIGO NA ÍNTEGRA:
Ações do papa Francisco são herança de experiência jesuítica na América

Umberto Eco
09/09/2013

O papa Francisco é um jesuíta que assumiu um nome franciscano e é a favor de se hospedar em hotéis simples, em vez de acomodações mais luxuosas. Tudo o que resta para ele é vestir um par de sandálias e um hábito de monge, expulsar do templo os cardeais que andam de Mercedes e voltar à ilha siciliana de Lampedusa para defender os direitos dos imigrantes africanos detidos lá.

Às vezes, parece que Francisco é a única pessoa restante que diz e faz "coisas de esquerda". Mas ele também é criticado por não ser esquerdista o suficiente: por não se manifestar publicamente contra a junta militar na Argentina nos anos 70; não apoiar a teologia da libertação, que visa ajudar os pobres e oprimidos; e não fazer pronunciamentos definitivos sobre o aborto ou pesquisa de célula-tronco. Logo, qual é exatamente a posição do papa Francisco?

Primeiro, eu acho errado considerá-lo um jesuíta argentino; talvez seria melhor pensarmos nele mais com um jesuíta paraguaio. Afinal, parece que sua educação religiosa foi influenciada pelo "experimento sagrado" dos jesuítas paraguaios. Hoje, o pouco que a maioria das pessoas sabe sobre esses eventos se deve ao filme "A Missão" de 1986, estrelado por Robert De Niro e Jeremy Irons e – com licença considerável – condensando 150 anos de história em cerca de duas horas. Resumindo: do México ao Peru, os conquistadores espanhóis promoveram massacres indizíveis, com apoio de teólogos que viam os povos indígenas como selvagens e acreditavam que havia uma justificativa divina para conquistá-los. No início do século 16, o corajoso missionário e historiador espanhol Bartolomé Las Casas famosamente trocou de lado, desistindo de seus servos indígenas e voltando à Espanha para defender uma forma mais pacífica de colonização. Ele pressionou contra a crueldade de conquistadores como Hernán Cortés e Francisco Pizarro, e apresentou os nativos sob uma luz completamente nova.

No início do século 17, missionários jesuítas decidiram reconhecer os direitos dos nativos (especialmente os guaranis, que viviam principalmente no Paraguai em condições praticamente pré-históricas) e os organizaram em "reduções", ou comunidades autossustentadas. Os jesuítas os ensinavam a administrarem a si mesmos, em comunhão total com os bens que produziam – apesar de com a meta de "civilizá-los", o que significava convertê-los. Eles também ensinavam aos nativos sobre arquitetura, agricultura, a ler e escrever, música e artes – em alguns casos, produzindo escritores e artistas talentosos.

A estrutura socialista dessas aldeias pode nos fazer pensar em "Utopia" de Thomas More, ou "A Cidade do Sol", de Tommaso Campanella, mas os jesuítas se inspiraram nas comunidades cristãs primitivas. Apesar de terem criado conselhos eletivos de nativos, no final os padres controlavam a administração da justiça. "Civilizar" os guaranis também significava proibir a promiscuidade, a preguiça, a embriaguez ritual e às vezes o canibalismo. Resumindo, os jesuítas estabeleceram um regime paternalista rígido. Assim, como qualquer chamada utopia, nós poderíamos admirar a perfeição organizacional de fora, mas certamente não gostaríamos de viver lá.

No final, o conflito em torno da escravidão e a ameaça dos bandeirantes, ou caçadores de escravos, levou à criação de milícias populares – apoiadas pelos jesuítas – que combatiam valorosamente os donos de escravos e colonizadores. Aos poucos, os países católicos na Europa passaram a ver os jesuítas como agitadores perigosos, e no século 18, após um édito do papa Clemente 14, Espanha, Portugal, França e outros países baniram os jesuítas. Desse modo, o "experimento sagrado" chegou ao fim.

Muitos pensadores do Iluminismo investiram contra o governo teocrático dos jesuítas como sendo o regime mais monstruoso e tirânico que o mundo já tinha visto, mas outros o viam de modo diferente: Lodovico Antonio Muratori, por exemplo, falou de comunismo voluntário inspirado pela religião, e Montesquieu disse que os jesuítas deram início à cura do flagelo da escravidão.

Agora, se escolhermos interpretar as ações de Francisco por esse ponto de vista, nós devemos considerar o fato de que quatro séculos se passaram desde aquele "experimento sagrado"; que a noção de liberdade democrática é amplamente reconhecida hoje, mesmo entre os integralistas católicos; que o atual papa certamente não pretende conduzir experimentos semelhantes na ilha de Lampedusa; e que seria melhor se ele conseguisse desativar gradualmente o Istituto per le Opere di Religione, o chamado Banco do Vaticano. Mesmo assim, de vez em quando não é ruim captar um vislumbre da história nos eventos que se desdobram à nossa volta atualmente.

(Umberto Eco é autor dos best-sellers internacionais "Baudolino", "O Nome da Rosa" e "O Pêndulo de Foucault", entre outros).



Tradutor: George El Khouri Andolfato
UMBERTO ECO
Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista. É autor de "O Nome da Rosa" e o "Pêndulo de Foucault".