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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

PARA SER ADMINISTRADOR DOS MISTÉRIOS DE DEUS

8º DOMINGO DO TEMPO COMUM

REFLETINDO: Isaías 49, 14-15; Salmo 61/ 62; I Coríntios 4, 1-5; Mateus 6, 24-34.
Queridos irmãos e queridas irmãs, mais uma vez gostaria de compartilhar minhas considerações a respeito das leituras e do Salmo responsorial desse domingo de carnaval.
Lembremos também que aproxima-se a quaresma, e com ela a Campanha da Fraternidade esse ano que traz a reflexão a respeito de um problema social gravíssimo, o tráfico humano.
Partindo da nossa didática de primeiro refletir a respeito do EU, o que a Palavra de Deus traz para nosso interior, que nós fortalece para viver e vivenciar o Reino de Deus, depois uma reflexão voltada para as ações da comunidade (Koinonia) e, enfim, para a sociedade, a coletividade.
LAVRANDO O CORAÇÃO: Isaías, nesse texto que está contido no 2º Cântico do Servo de Javé, refere-se ao sentimento do exilado na Babilônia, que se questiona diante da escravidão do exílio sobre o poder de Deus. Assim somos nós nos nossos exílios existenciais, quando parece que perdemos tudo e nada mais nos resta. Dias de aflição e “noites traiçoeiras” acabam, as vezes, nos levando a questionar o poder restaurador de Deus, que parece nos ter abandonado. O profeta Isaías nos lembra que Deus não se esquece de nós. Emerge desse texto do profeta um rosto maternal de Deus em uma cultura machista. Deus é uma mulher que não se esquece do seu filho.
Somente Deus é o rochedo e salvação, lembra o salmista, nas horas de aflição.
Tanto Paulo quanto Jesus, no sermão da montanha, nos questiona se de fato somos seguidores de Deus. Se Deus é de fato o Senhor em nossas vidas.
Jesus nos dá o conselho primordial, buscai primeiro do Reino de Deus, e tudo mais será acrescentado.
Então irmãos e irmãs, em nossa vida, Deus é o Senhor, ele nos dará o louvor merecido (1Cor  4,5).

LAVRANDO A KOINONIA: As nossas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), nossas pastorais e nossos movimentos e grupos encontraram nessas leituras as indicações para agir mediante uma sociedade opressora como Babilônia. Vivemos verdadeiras babilônias ainda hoje quando ainda encontramos diferenças sociais e opressões cometidas pelo próprio Estado, seja pela união, pela unidade da federação (estado), ou seja, pelo poder local (municipal). Paulo fala que o mundo deve nos considerar servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus. Primeiro ele diz que uma das características do administrador dos mistérios de Deus é a fidelidade ao Projeto. Essa fidelidade ao projeto deve estar explícita no agir pastoral de uma comunidade de fé.
Toda comunidade e todo grupo religioso, que tem como missão evangelizar, deve primeiro buscar o Reino de Deus, e cativar a justiça. Cativar a justiça é julgar o mundo segundo a ótica de Deus. É por os óculos de Deus para ver o mundo como Deus vê e não como cada um vê.
Quando Jesus questiona: “Afinal, a vida não vale mais que o alimento, e o corpo mais que a roupa?”, ele nos questiona o quanto vale a vida para nós.
A questão do chamado PONTO DE VISTA em uma comunidade pode dividir essa comunidade. O ponto de vista dos membros de uma comunidade deve ser sobretudo o ponto de vista da Bíblia, da Palavra de Deus, por isso, o grupo de reflexão é primordial, catequisa para que tenhamos sempre o ponto de vista da Bíblia, ainda que sejamos julgados pelo mundo, mas o que de fato deve nos incomodar é o Julgamento de Deus, pois ele iluminará o que estiver escondido (1 Cor 4, 5).
Uma didática pastoral interessante na fala de Jesus é como lidar com as prioridades da comunidade. Uma coisa de cada vez, “Para cada dia bastam seus próprios problemas”( Mt, 6, 34) .
LAVRANDO A COLETIVIDADE: Recentemente estive refletindo sobre esse evangelho para elaborar o 8º encontro do Natal em Família, quando então já teremos trabalhado a CF-2014. O desafio era refletir sobre ONG (Organizações Não-Governamentais) que trabalham com o tema desse ano. Mas mais que refletir sobre ONGs é pensar no que temos feito em nossos municípios para criar condições e vencer as situações que vulnerabilizam homens e mulheres, vítimas do tráfico humano.
Primeiro ocorre um pecado social, implantado pelo capitalismo que leva a cada um se preocupar consigo mesmo e com o que vai comer, beber e vestir, antes de buscar as coisas do Reino de Deus, e nessa lógica é que homens e mulheres em suas necessidades ficam vulneráveis ao processo de tráfico humano. Por outro lado temos as pessoas que se beneficiam, que consomem, do produto desse tráfico, seja o fazendeiro que explora ou seja aquele que se utiliza dos serviços sexuais quando essa é a finalidade, sobretudo do tráfico de mulheres.
Devemos nos ocupar e cuidar para que todos tenham condições de sobrevivência em suas cidades, assim ninguém irá se submeter a nenhum “canto de sereia” e morrer mergulhado nas conseqüências dessa escravidão em pleno século 21. A igreja precisa incentivar as associações a desenvolver projetos sociais que gerem renda e ao mesmo tempo cobrar das autoridades locais mais engenhosidade nas políticas públicas, dando condições de todos acessarem as políticas voltadas para a superação da miséria.
Deus é nosso rochedo, e precisa ser o rochedo de todos e de todas que estão angustiados, exilados social, financeira e psicologicamente. Que Deus, como a mãe que não esquece os seus filhos, possa nos louvar em sua Glória segundo o nosso merecimento, e que nós possamos buscar primeiro o seu Reino, pois somos seus servos e ADMINISTRADORES DOS SEUS MISTÉRIOS.

Bom carnaval e que façamos nessa quaresma, uma profunda conversão. Converter-se a cada dia é preciso. Bom Domingo!

sábado, 16 de março de 2013

IMPLICAÇÕES SOCIOPASTORAIS DA PALAVRA: QUANDO A TRADIÇÃO VIRA CONTRADIÇÃO


IMPLICAÇÕES SOCIOPASTORAIS DA PALAVRA
NOTA DO BLOGUEIRO: Começaremos aqui, ou pelo menos faremos nossa tentativa, de uma série de reflexões, tendo como pano de fundo as leituras bíblicas de cada domingo, portanto a série será semanal, na sexta-feira ou sábado pela manhã, como essa, a ser postadas no nesse blog. Sabemos que nossas equipes de reflexão já fizeram a leitura e a reflexão partilhada do evangelho nas equipes e os sites e blogs estão cheios de homilias. O próprio portal da nossa diocese já o faz. Então queremos aqui apenas deixar mais uma contribuição tendo em vista o viés social e pastoral em que as CEBs estão.
QUANDO A TRADIÇÃO VIRA CONTRADIÇÃO
         O evangelho desse  5º domingo da quaresma (17 de março de 2013) nos traz como contexto uma realidade presente na sociedade de hoje, explorada inclusive em uma das novelas atuais, a prostituição.
         A visão estreita, egocêntrica, de uma religião baseada em leis e regras e não no amor, vê apenas a pessoa do prostituído, sim. Até o autor do evangelho usa o termo usado pelo senso comum: “trouxeram uma mulher surpreendida em adultério (Jo8,3)”. O certo seria, trouxeram uma mulher e um homem que estavam cometendo adultério. A princípio percebe-se que a sociedade no tempo de Jesus era extremamente machista.
Ainda hoje vemos essa desvalorização da mulher, ainda que tenhamos que reconhecer e comemorar alguns avanços. Era para apedrejá-la. Era a tradição que tinha virado lei. Mas Jesus percebia que havia uma contradição perante a tradição. A visão dos fariseus era a visão do senso comum e não uma visão baseada no senso crítico. Não via o entorno, apenas focalizava na vítima. Eram como burros com tapa-olhos.
Jesus tem duas atitudes interessantes:
            a)                          primeiramente uma atitude de transformação social, de profetismo, de questionamento da tradição, da lei, Ele escreve no chão para demonstrar que as leis precisam mudar sempre em direção ao homem. A lei deve estar a serviço da vida e não a vida a serviço da lei. É um questionamento do Poder Judiciário. Sim, o atual poder judiciário deve ser questionado em conjunto com o Poder Legislativo. Leis baseadas no senso comum são criadas para dar soluções prontas e superficiais a problemáticas sociais cada vez mais complexas. Veja atualmente a questão da redução da maioridade penal. Resolve o problema? Não. Vai apenas superlotar as já superlotadas penitenciárias que em Minas estão sendo privatizadas com o nome de PPP.  
b)                         A segunda atitude é uma atitude pastoral. Especialmente uma atitude que deve ser encarnada pela Pastoral da Juventude e pela Pastoral Familiar. A atitude da acolhida da pessoa, e não do seu pecado. É uma atitude de apontar caminhos, pois encontra-se nessa atitude um nexo com a primeira leitura (Is 43, 16-21). A pessoa que entende essa atitude, encontra esse caminho, essa verdade e portanto encontra a vida, novamente, como um rio no deserto, uma estrada no meio do nada, precisa ter a atitude de Paulo (Fl 3,8-14), experimentar a força da Ressurreição de Cristo em nossas vidas.
Aqui para nós, quantas vezes nós mesmos precisamos re-experimentar essa ressurreição, quantas vezes nossas vidas nos parece um deserto. Nós que acreditamos numa Igreja engajada nas lutas sociais, vivemos nas duas últimas décadas um deserto dentro da própria estrutura eclesial. Talvez agora haja um rio nascendo, uma estrada sendo construída. Mas como disse Paulo aos filipenses: “Esquecendo o fica para trás, eu me lanço para o que está na frente. Fl 3,13”
Esses são desafios que a Palavra de Deus nós traz nesse fim de semana:
  •     Denunciar a hipocrisia social da relação do nosso corpo com as leis. Todo pecado tem suas implicações sociais, drogas, prostituição, esfacelamento da família, etc;
  •     Denunciar um sistema judiciário que condena algumas pessoas e não debate situações;
  •     Rever nossas tradições. Quando a tradição vira contradição, é hora de ser contra a Tradição. É o que fez Jesus;
  •    Acolher as pessoas indistintamente sem acolher seu pecado;
  •       Perceber como Deus abre caminhos no deserto, como ele sacia nossa sede em meio às securas da vida.


Fé em Deus e caminhando sempre. Corramos direto para nossa meta, como nos ensina Paulo nesse fim de semana.

Fraternalmente, Cláudio.