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domingo, 2 de agosto de 2015

CUIDAR DE SI MESMO

NOTA DO BLOG: Compartilhar nesse blog os artigos de Leonardo Boff é se propor a contribuir para a formação e informação daqueles e daquelas que querem caminhar encarnando o Projeto do Reino de Deus na sua práxis.

Entendemos que Leonardo Boff, esse grande teólogo do cristianismo latino-americano tem muito a partilhar conosco.
Nesse artigo Leonardo Boff nos leva a uma reflexão propositiva de uma autocrítica quanto ao nosso ser. Cuidar de si mesmo é de fato um desafio permanente. Essa contradição que habita em nós, ser o nada diante de tudo e ao mesmo tempo ser um tudo diante do nada. É mais que uma reflexão filosófica na década em que o pêndulo pende para o emocional. É uma reflexão pastoral na medida em que nós temos que nos entender para depois entender o outro.

Essa reflexão do cuidar de si mesmo está em consonância com o cuidar da natureza

Boa leitura do artigo de Leonardo Boff.
FONTE: https://leonardoboff.wordpress.com/
Um desafio permanente: cuidar de si mesmo
01/08/2015
  Ao assumir a categoria “cuidado” na relação para com a Mãe Terra e para com todos os seres, o Papa Francisco reforçou não só uma virtude mas um verdadeiro paradigma que representa uma alternativa ao paradigma da modernidade que é a da vontade de poder /dominação que tantos prejuízos trouxe.

Devemos cuidar de tudo, também de nós mesmos, pois somos o mais próximo dos próximos e, ao mesmo tempo, o mais complexo e o mais indecifrável dos seres.

Sabemos quem somos? Para que existimos? Para onde vamos? Refletindo nestas perguntas inadiáves vale lembrar a ponderação de Blaise Pascal (+1662) talvez a mais verdadeira.

Que é o ser humano na natureza? Um nada diante do infinito, e um tudo diante do nada, um elo entre o nada e o tudo, mas incapaz de ver o nada de onde veio e o infinito para onde vai (Pensées § 72).

Na verdade, não sabemos quem somos. Apenas desconfiamos como diria Guimarães Rosa. Na medida em que vamos vivendo e sofrendo, lentamene desvendamos quem somos. Em último termo: expressões daquela Energia de fundo (Deus ?) que tudo sustenta e tudo dirige.

Junto com aqulo que de fato somos, existe também aquilo que potencialmente podemos ser. O potencial pertence tambem ao real, quem sabe, a nossa melhor parte. A partir deste transfundo, cabe elaborarmos  chaves de leitura que nos orientam na busca daquilo que  queremos e podemos ser.

É nesta busca que o cuidado de si mesmo desempenha uma função decisiva. Não se trata, primeiramente, de um olhar narcisista sobre o próprio eu o que leva, geralmente, a não conhecer-se a si mesmo mas identificar-se com uma imagem projetada de si mesmo e, por isso, falsa e alienante.

Foi Michel Foucauld com sua minuciosa investigação Hermenêutica do sujeito (2004) que tentou resgatar a tradição ocidental do cuidado do sujeito, especialmente nos sábios do século II/III como Sêneca, Marco Aurélio, Epicteto e outros. O  grande motto era o famoso ghôti seautón, conheça-te a ti mesmo. Esse conhecimento não era algo abstrato mas muito concreto como: reconheça-te naquilo que és, procure aprofundar-te em ti mesmo para descobrires tuas potencialidades; tente realizar aquilo que de fato podes.

Neste contexto se abordavam as várias virtudes, tão bem discutidas por Sócrates. Ele advertia evitar o pior dos vícios que para nós se tormou comum:a hybris. Hybris é o ultrapssar os limites e colocar-se acima dos outros. Talvez o maior impasse da cultura ocidental, da cultura cristã, especialmente da cultura estadounidense com o seu imaginado Destino Manifesto (o sentir-se o novo povo eleito por Deus) é a hybris: o sentimento de superioridade e de excepcionalidade, impondo aos outros nossos valores.

A primeira coisa que importa afirmar é que o ser humano é um sujeito e não uma coisa. Não é uma substância, constituída uma vez por todas mas um nó de relações sempre ativo que mediante a cadeia das relações está continuamente se construindo, como o faz o universo. Todos os seres consoante a nova cosmologia, são portadores  de certa subjetividade porque têm história, vivem em interação e interdependência de todos com todos, aprendem trocando e acumulando informações. Esse é um princípio cosmológico universal. Mas o ser humano realiza  uma modalidade própria  deste princípio que é o fato de ser um sujeito  consciente e reflexo. Ele sabe que sabe e sabe que não sabe e, para sermos completos, não sabe que não sabe.

Este nó de relações se articula a partir  de um Centro ao redor do qual organiza as relações com todos os demais. Esse eu profundo nunca está só. Sua solidão é para a comunhão. Ele reclama um tu. Melhor, segundo Martin Buber, é a partir do tu que o que eu desperta e se forma. Do eu e do tu nasce o nós.

O cuidado de si implica, em primeiríssimo lugar, acolher-se a si mesmo, assim como se é com suas aptidões e seus limites. Não com amargura como quem quer modificar a sua situação existencial. Mas com jovialidade. Acolher o próprio rosto, cabelos, pernas, seios, sua aparência e modo de estar no mundo,  em fim seu corpo (Veja Corbin e outros, O corpo, 3 vol. 2008). Quanto mais nos aceitamos menos clínicas de cirurgias plásticas existirão. Com as características físicas que temos, devemos elaborar nosso jeito de ser no mundo.

Nada mais ridículo que a construção artificial de uma beleza moldada em disssonância com a beleza interior. É  a tentativa vã de fazer um “photoshop” da própria imagem.

O cuidado de si exige saber combinar as aptidões com as motivações. Não basta termos aptidão para a música se não sentimos motivação para ser músico. Da mesma forma, não nos ajudam as motivações para sermos músico se não tivermos a aptidão para isso. Disperdiçamos energias e colhemos frustrações. Ficamos medíocres, o que não  engrandece.

Outro componente do cuidado para consigo mesmo é saber e aprender a conviver com a dimensão de sombra que que acompanha a dimensão de luz. Amamos e odiamos. Somos feitos com estas contradições. Antropologicamente se diz que somos ao mesmo tempo sapiens e demens, gente de intligência e junto a isso gente de rudeza. Somos o encontro das oposições.

Cuidar de si mesmo é poder criar uma síntese onde as contradições não se anulam mas o lado luminoso predomina.

Cuidar de si mesmo é amar-se, acolher-se, reconhecer sua vulnerabilidade, poder chorar, saber perdoar-se e perdoar e desenvolver a resiliência que é a capacidade de dar a volta por cima e aprender dos erros e contradições. Então escrevemos direito apesar das linhas tortas.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

EM 2015: CENTRE A SUA VIDA

Em concordância com Leonardo Boff, quase sempre, reproduzo no meu blog pastoral o artigo de Frei Betto pelo que ele traz de reflexão profunda e objetiva sobre o que desejar a aqueles e aquelas que queremos bem.

Vale pela lucidez com que Frei Betto mais uma vez nos brinda. Feliz ano novo ao amigos e companheiros de luta e esperança.


FAÇA NOVO O TEU ANO


29/12/2014
Nada melhor para esse início de ano de 2015 que promete ser um caminho de espinhos e de abrolhos do que estas palavras sábias e esperançadoras de frei Betto, um dos que melhor escreve sobre espiritualide e sobre engajamento para transformação social a partir dos mais esquecidos e sofredores. Toda sua vida vem marcada por esta opção, em razão da qual está nas origens do programa Fome Zero do governo de Lula-Dilma. Não fez outra coisa que repetir o gesto de Jesus, o de multiplicar os pães e os peixes. Esta iniciativa ficará imorredoura na história de nosso país: Lboff
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 Neste ano-novo, se faça novo, reduza a ansiedade, regue de ternura os sentimentos mais profundos, imprima a seus passos o ritmo das tartarugas e a leveza das garças.

Não se mire nos outros; a inveja mina a autoestima, fomenta o ressentimento e abre, no centro do coração, o buraco no qual se precipita o próprio invejoso.

Espelhe-se em si mesmo, assuma seus talentos, acredite em sua criatividade, abrace com amor sua singularidade. Evite, porém, o olhar narcísico. Seja solidário: estenda aos outros as mãos e oxigene a própria vida. Não seja refém de seu egoísmo.

Cuide do que fala. Não professe difamações e injúrias. O ódio destrói a quem odeia, não o odiado. Troque a maledicência pela benevolência. Comprometa-se a expressar alguns elogios por dia. Sua saúde espiritual agradecerá.

Não desperdice a existência hipnotizado pela TV ou navegando aleatoriamente pela internet, naufragado no turbilhão de imagens e informações que não consegue síntetizar. Não deixe que a sedução da mídia anule sua capacidade de discernir e o transforme em consumista compulsivo. A publicidade sugere felicidade e, no entanto, nada oferece senão prazeres momentâneos.

Centre sua vida em bens infinitos, nunca nos finitos. Leia muito, reflita, ouse buscar o silêncio neste mundo ruidoso. Lá encontrará a si mesmo e, com certeza, um Outro que vive em você e que quase nunca é escutado.

Cuide da saúde, mas sem a obsessão dos anoréticos e a compulsão dos que devoram alimentos com os olhos. Caminhe, pratique exercícios, sem descuidar de aceitar as suas rugas e não temer as marcas do tempo em seu corpo. Frequente também uma academia de malhar o espírito. E passe nele os cremes revitalizadores da generosidade e da compaixão.

Não dê importância ao que é fugaz, nem confunda o urgente com o prioritário. Não se deixe guiar pelos modismos. Faça como Sócrates, observe quantas coisas são oferecidas nas lojas que você não precisa para ser feliz. Jamais deixe passar um dia sem um momento de oração. Se você não tem fé, mergulhe em sua vida interior, ainda que por apenas cinco minutos.

Arranque de sua mente todos os preconceitos e, de suas atitudes, todas as discriminações. Seja tolerante, coloque-se no lugar do outro. Todo ser humano é o centro do Universo e morada viva de Deus. Antes, indague a si mesmo por que, às vezes, provoca nos outros antipatia, rejeição, desgosto. Revista-se de alegria e descontração. A vida é breve e, de definitivo, só conhece a morte.

Faça algo para preservar o meio ambiente, despoluir o ar e a água, reduzir o aquecimento global. Não utilize material que não seja biodegradável. Trate a natureza como aquilo que ela é de fato: a nossa mãe. Dela viemos e a ela voltaremos. Hoje, vivemos do beijo na boca que ela que nos dá continuamente: ao nutrir cada um de nós de oxigênio e alimentos.

Guarde um espaço em seu dia a dia para conectar-se com o Transcendente. Deixe que Deus acampe em sua subjetividade. Aprenda a fechar os olhos para ver melhor.

Feliz 2015!

Frei Betto é escritor, autor de “A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros.

domingo, 23 de março de 2014

A ÁGUA SEGUNDO LEONARDO BOFF

Dia internacional da Água: Água fonte de vida ou de lucro?

22/03/2014
Neste dia mundial da água, convém fazermos pequena reflexão sobre o que ela significa e as ameaças que pesam sobre esse bem tão vital. Pois a questão da água potável constitui um dos maiores problemas da humanidade, tão grave quanto o aquecimento global. Consideremos  os dados básicos acerca da água. Ela é extremamente abundante e simultaneamente extremamente escassa.
      Existe cerca de um bilhão e 360 milhões de km cúbicos de água na Terra. Se tomarmos toda essa água que está nos aceanos, lagos, rios, aquíferos e calotas polares e distribuissemos equitativamente sobre a superfície terrestre, toda a Terra ficaria mergulhada na água a três km de profundidade. 97% é água salgada e  3% é água doce. Mas somente 0,7% desta é diretamente acessível ao uso humano.
      A renovação das águas é da ordem de 43 mil km cúbicos/ano, enquanto o consumo total é estimado em 6 mil km cúbicos/ano. Há, portanto, superabundância de água mas desigualmente distribuída: 60%  se encontra em apenas 9 países, enquanto 80 outros enfrentam escassez. Pouco menos de um bilhão de pessoas consome 86% da água existente enquanto para 1,4 bilhões é ela insuficiente (em 2020 serão três bilhões) e para dois bilhões, não é tratada, o que gera 85% das doenças constatáveis.. Presume-se que em 2032 cerca de 5 bilhões de pessoas serão afetadas pela crise de água.
     O problema não é a escassez de água mas sua má gestão para atender as demandas humanas e dos outros seres vivos da natureza.

          O Brasil é a potência natural das águas, com 13% de toda água doce do Planeta perfazendo 5,4 trilhões de metros cúbicos. Apesar da abundância, 46% dela é desperdiçada, o que daria para abastecer toda a França,  a Bélgica, a Suíça e o Norte da Itália.

Por ser um bem cada vez mais raro, ela é objeto da cobiça daqueles que querem fazer dinheiro com ela. Por isso nota-se uma corrida mundial para a privatização da água. E então surge o dilema:
A água é fonte de vida ou fonte de lucro? É um bem natural, vital e insubstituível ou um bem econômico e uma mercadoria?
       Os que apenas visam lucro, tratam a água como mercadoria e no máximo como recurso hídrico. Os que dão centralidade à vida, como a maior criação do universo e o supremo dom de Deus, a vêem como bem essencial aos seres humanos e a todos os organismos vivos.
    O direito sagrado à vida implica o direito à água potável gratuita. Mas pelo fato de haver custos na sua captação, no seu tratamento, distribuição, uso e reuso existe inegável dimensão econômica. Mas isso não justifica que ela se transforme em fonte de lucro. Os custos não podem invalidar o direito. Os custos devem ser cobertos pelo poder público e pela a sociedade com fundos destinados ao acesso universal de água doce.
   Há de se questionar a expressão “água como recurso hídrico”. Ela, propriamente, não érecurso. É patrimônio natural que herdamos e que devemos preservar para todos os seres vivos atuais e futuros. Água é vida. Por isso os cientistas buscam água em Marte, porque sabem, se existe água lá, estão dadas todas as condições para a vida, por mais rudimentar que seja.
       Quando falamos em água como vida ressoam em nós outros valores como vida, fecundidade, purificação, renascimento. Todos estes temas estão presentes nas religiões que transformaram a água num dos símbolos fundamentais de Deus,  e nós cristãos de Cristo e da vida eterna.
       A água tem imenso valor mas não tem preço. Para garantir água para todos faz-se mister uma ética do cuidado de suas fontes, das matas ciliares junto aos rios e de sua purificação. Por ser desigualmente distribuida na natureza, o direito  de todos à água demanda uma ética da solidariedade na sua distribuição. E para que não haja  disperdício precisamos de uma ética da responsabilidade; o que jogamos fora fará falta a outros.
       Se houver cuidado, solidariedade e responsabilidade a Terra será generosa e garantirá água abundante para todos e de qualidade.
*Leonardo Boff é filósofo e teólogo, escritor, assessor do projeto Cultivando Agua Boa da Itaipu Binacional  e um dos co-redatores da Carta da Terra

sexta-feira, 21 de março de 2014

A VIA SACRA DO PLANETA TERRA

NOTA DO BLOG: A Igreja inserida nas tramas e nos dramas da humanidade consegue entender que precisamos urgentemente profetizar e, sobretudo, buscar a construção de uma sociedade ecologicamente correta, ainda que seja "politicamente" incorreta. Aí está um texto do Teólogo Leonardo Boff, nos contemplando com mais uma de suas reflexões precisas a respeito do preço que pagamos por não nos libertar e não libertar a mãe Terra de tudo que a aprisionamos.


QUANDO A GRANDE TRIBULAÇÃO CHEGAR A TERRA TERÁ ENFIM SEU MERECIDO DESCANSO

21/03/2014
Achamos muito oportunas as reflexões deste autor que trabalha a ecologia com pequenos produtores rurais junto ao rio Surui, na Baixada Fluminense. Eis seu texto:
“Ninguém sabe ao certo o dia e hora. É que já estamos no meio dela, sem notarmos. Mas que está vindo, está, cada vez com mais intensidade e nitidez. Quando acontecer a grande virada, tudo vai parecer como se fosse de surpresa.
Embora haja dados seguros que apontam a inevitabilidade das mudanças globais devidas ao clima, com conseqüências que os cientistas tentam adivinhar, mas que seguramente serão para o pior, os interesses econômicos das grandes nações e a falta de visão a longo termo de seus líderes, não lhes permitem tomar as medidas necessárias para mitigar os efeitos e adaptar seu modo de vida ao estado febril da Terra.

Poderíamos imaginar um cenário plausível em que furacões varrerão regiões inteiras. Ondas gigantescas engolirão cidades e civilizações, indo morrer aos pés das montanhas. Secas prolongadas farão com que se troquem todas as riquezas por um simples copo de água suja. O calor e o frio extremos farão lembrar com saudades das histórias das avós que falavam das brisas da tarde e do aconchego de uma lareira no inverno, sempre previsível, e dos frutos amadurecidos ao calor de um sol de verão benfazejo. Comer-se-á só para sobreviver, sempre pouco e de gosto duvidoso.
Mas tudo isto ainda não será o pior. A mãe, de tão fraca, não conseguirá enterrar a filha e o neto matará o avô por causa de uma côdea de pão. O cão e o gato, amigos do homem, serão buscados por toda a parte como última possibilidade de matar a fome. Os vivos invejarão os mortos e não haverá quem chore a morte de crianças. A fome chegará a tal ponto que, como na Jerusalém sitiada, os famintos aguardarão a próxima vítima da morte para disputar-lhe a carne esfiapada.
“O país ficará devastado e as cidades se tornarão escombros. Todo o tempo em que ficar devastada, a Terra descansará pelos sábados que não descansou quando nela habitáveis” (Lev. 26,33-35).
Mas será o fim de toda a biosfera? Não. Por causa dos justos e sensatos, Deus abreviará esses dias e não dizimará toda a vida sobre a Terra, mantendo a promessa que fizera a nosso pai Noé. Mas é necessário que o ser humano passe por essa tribulação para acordar do seu egocentrismo e reconhecer em definitivo que ele é parte da comunidade da vida e o principal guardador dela.
Que fazer para nos prepararmos para esses tempos? Primeiramente, reconhecer que já vivemos neles. Hoje já não sabemos quando virá a primavera ou outono. Já não contamos com os meses de frio e calor. Já não sabemos reconhecer quando fará chuva ou sol.
Depois, importa ficar quieto, vigiando e observando os sinais que indicam a aceleração dos processos de mudança. E sobretudo, é imprescindível converter-se, mudar de hábitos de vida, uma mudança profunda, pessoal e definitiva. Só então estaríamos em condições morais de pedir aos outros que façam o mesmo. Mas como no tempo dos profetas, poucos ouvirão, alguns escarnecerão e a maioria se manterá indiferente e se permitindo toda sorte de liberdades como no tempo de Noé.
Deveríamos ainda voltar às raízes, recomeçar, como tantas vezes já fez a humanidade arrependida, reconhecendo que somos apenas criaturas e não Criador, que somos companheiros e não senhores da natureza; que para nossa felicidade é indispensável nos submeter às grandes leis da vida e ouvir com atenção a voz de nossa consciência. Se obedecermos a essas leis maiores, colheremos os frutos da Terra e a alegria da alma. Se desobedecermos a elas, herdaremos uma civilização como essa na qual estamos vivendo, cheia de avidez, guerras e tristezas.
Para esses tempos de carestia que virão, é fundamental  recuperar as ancestrais artes e técnicas do plantar, colher, comer; do cuidar dos animais e servir-se deles com respeito; do fazer utensílios e ferramentas, com arte e tecnologia local; do selecionar e plantar as ervas que curam e os grãos que nutrem; do recolher para tecer; do preservar as fontes d´água, do encontrar lugares apropriados para cavarmos os poços e do aprender a guardar as águas da chuva. É entrar na faculdade da economia da escassez, da sobriedade compartida e da beleza despojada. Desse saber recuperado e enriquecido surgiria uma civilização do contentamento, uma biocivilização, a Terra da boa esperança.
Depois dessa longa temporada de lágrimas e esperanças, superaremos essa estúpida guerra de religiões, essa intolerável disputa de deuses. Para além dos profetas e tradições, para além das morais e liturgias, quem sabe voltemos a adorar, sob múltiplos nomes e formas, o único Criador de todas as coisas e Pai-Mãe de todos os viventes, no grande Espírito que a tudo une e inspira, entrelaçados amorosamente na única fraternidade universal. E poderemos enfim organizar verdadeiramente a união de todos os povos do mundo e um autêntico parlamento de todas as religiões.
Waldemar Boff é formado em filosofia e sociologia nos USA, fundou o SEOP(Serviço de Educação e Organização Popular que atua entre os pobres na Baixada Fluminense.

domingo, 16 de março de 2014

RELIGIOSIDADE DO POVO BRASILEIRO

O cristianismo ajudou a formar a identidade dos brasileiros. No tempo da Colônia e do Império ele entrou pela via da missão (igreja institucional) e da devoção aos santos e santas (cristianismo popular). Modernamente está entrando pela vida da libertação (círculos bíblicos, comunidades de base e pastorais sociais) e pelo carismatismo (encontros de oração e de cura, grandes shows-celebrações dos padres mediáticos).     Fundamentalmente o cristianismo colonial e imperial educou as classes senhoriais sem questionar-lhes o projeto de dominação e domesticou as classes populares para se ajustarem ao lugar que lhes cabia na marginalidade. Por isso a função do cristianismo foi extremamente ambigua mas sempre funcional ao status quo desigual e injusto. Raramente foi profético. No caso da escravidão foi francamente legitimador de uma ordem iniqua.
POST NA ÍNTEGRA: leonardoboff.wordpress.com.

sábado, 15 de março de 2014

SAGRADA FAMÍLIA & FAMÍLIA MODERNA


Sabemos que como toda pastoral, a pastoral família, ou outros movimentos diretamente ligados à questão da família como o ECC (Encontro de Casais com Cristo), vivem esses percalços impostos por uma nova realidade que leva ao individualismo.

A tempos que a família, juntamente com escola e igrejas, deixou de ser instituição de controle e passou a ser dilacerada, desmontada, para atender aos propósitos de uma cultura que enaltece o egocentrismo. Daí a dificuldade da partilha, uma vez que a família requer sempre uma convivência ao sistema "tribal", com funções não bem definidas e a disponibilidade de bens para que todos da casa possam usar.

Reproduzo o texto do teólogo Leonardo Boff, para entendermos essas questões:

A família entre utopia e realidade:uma reflexão teológica
14/03/2014

   Antes de abordarmos, suscintamente, a questão complexa da família (1), faz-se mister conscientizar uma verificação sem a qual toda nossa reflexão se apresentaria viciada ou condenada ao irrealismo. É o fato de que a família, mais que qualquer outra realidade, participa da ambiguidade inerente à condição humana que nos faz simultaneamente dementes e sapientes, sim-bólicos e dia-bólicos, numa palavra, nos revela a coexistência da luz e da sombre e de intrincadas de contradições que existem em cada um de nós. Por isso, por um lado, a família encerra altíssimos valores e, por outro, contem   deformações lamentáveis. Dai viver em permanente crise, com chances de acrisolamento (donde vem a palavra crise) e de crescimento ou também com riscos de decadência e de deterioramento de sua situação.

       1. Família: utopia e realidade
Não obstante esse dado primeiro, não desaparece em nós  dimensão utópica, vale dizer, aquele horizonte de sentido que nos chama sempre a melhorar e a não nos resignar à realidade dada. Recusamo-nos aceitar passivamente a situação decadente. Queremos superá-la. Não secundamos um pragmatismo preguiçoso, sem sonhos e destituído de vontade de aperfeiçoamento, que simplesmente administra a crise, tirando vantagens onde pode, mas sem um projeto de criação de novos modelos de convivência. Infelizmente, esta é a tendência dominante, particularmente, no quadro da pós-modernidade para a qual qualquer coisa vale (anything goes) ou só vale o que está na moda.
Entretanto, uma pessoa ou uma sociedade que já não sonha e que não se orienta por utopias, escolheu o caminhou de sua decadência e de seu desaparecimento. Sem utopia não se alimenta a esperança. Sem
Protótipo de família moderna
esperança não há mais razões para viver e o desfecho fatal é a auto-destruição. Por isso é de fundamental importância a dimensão utópica em tudo o que empreendemos, também com referência à família, mesmo com a consciência de que jamais alcançaremos a utopia. Não obstante isso, esta desempenha função insubstituível, pois a ela  relativiza as realizações históricas concretas e mantém o processo sempre aberto a novas incorporações. Numa palavra, a utopia nos fazer andar. Jamais alcançaremos as estrelas. Mas que seriam nossas noites sem elas? São elas que espantam os fantasmas da escuridão e nos enchem de reverência face à “grandeur” e à majestade de um céu estrelado. Porque temos  estrelas, não tememos a escuridão.
Precisamos, portanto, de uma utopia para a família, para que continue humana, lugar de realização a dois no amor e na confiança, digna de procriar novas vidas para esse mundo e para Deus.

       Quando confrontamos, entretanto, a família humana com a Família divina que é a SS. Trindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo e a sagrada família de Nazaré, de Jesus, Maria e José, estas contradições que referimos saltam aos olhos. O risco é a produção de um discurso paralelo: exaltar, por um lado, as excelências da Família divina e da sagrada Família de Nazaré e apontar e, por outro, as mazelas da família humana, sem um real confronto entre elas.
Outro risco, mais frequente na produção escrita e falada dos cristãos é apresentar, por cima das cabeças, a utopia cristã da família, sem tomar a sério os desafios que vêm da família atual, sob a pressão violenta de transformações de toda ordem que ocorrem na sociedade, nas formas dos relacionamentos humanos e de coabitação entre pessoas que querem viver juntas. O discurso cristão, então, soa irrealista, sem responder às demandas reais dos cristãos.
       Nossa reflexão   procura manter a dialética entre o utópico e o real contraditório. Partiremos dos desafios do real para, então, confrontá-lo com utópico. Desta forma, esperamos  fazer justiça às duas dimensões e estaremos em condição de criar  espaço para inspirações que incentivam a criatividade face à realidade histórico-social que nos toca sofrer e viver.


       2. A família e as transformações histórico-sociais
A família padece  pesadamente das influências da cultura dominante, hoje mundializada. Esta se caracteriza por processos sociais que colocam a economia como eixo estruturador de tudo. Esta economia e seu maior instrumento, o mercado, se regem por uma feroz competição deixando totalmente à margem a cooperação e os valores da solidariedade, fundamentais para a vida humana e para a família. Ela trouxe inegáveis benefícios para a condição humana, especialmente as comodidades da vida cotidiana, a medicina, os transportes, a comunicação e tantas outras mas também a agravou porque está mais interessada em oferecer bens materiais do que qualquer outra coisa. Os valores não materiais, ligados à gratuidade, ao amor, à solidariedade, à fraternidade, à troca e à espiritualidade ocupam um lugar irrelevante quando não são feitos também mercadorias, colocadas na banca do mercado e exploradas por conhecidos pregadores televisisos ou por todo um mercado de literatura de auto-ajuda que mais ilude que ilumina.

Ora, destes valores altamente positivos vive fundamentalmente a família. Lamentavelmente constatamos que nossa cultura não oferece as condições concretas e adequadas para a família viver com normalidade tais valores e alimentar seu sonho. Antes, destrói, para a grande maioria das famílias, a infra-estrutura que lhes permite subsistir, viver o amor e exercer o cuidado para com os filhos/filhas. Isso porque a riqueza é pessimamente distribuída. Esta injustiça social globalizada dá origem a milhões e milhões de famílias empobrecidas, marginalizadas e excluídas. Separações e divórcios campeiam de forma assustadora. As maiores vítimas são as crianças a quem se negam as condições fundamentais que ocorrem nos três primeiros anos, de elaborar, em conctato com a mãe e em seguida com o pai, as disposições básicas que vão orientar
Namoro virtual como desafio para pais e filhos.
toda a vida: o sentimento de pertença, a percepção de cuidado, de proteção, o sentido dos limites e da partilha, valores fundamentais que orientam todo o percurso da  vida.
Como se depreende, nosso tipo de organização social não prima pelo cultivo de valores nem se submete a critérios éticos coletivos que ultrapassam interesses individuais. A dimensão espiritual é privatizada ou se apresenta extremamente anêmica. Tal atmosfera não propicia ambiente favorável a uma família bem integrada e sadia nem lhe subministra motivações para resistir aos apelos da erotização generalizada dos meios de comunicação inclusive os chats eróticos e de namoros virtuais via internet, que tanto debilitam os laços da fidelidade e do afeto conjugal, nem lhe oferece auxílios em momentos de crise.

A este cenário familiar dramático somam-se ainda as profundas transformações sociais e tecnológicas  que afetam pesadamente o estatuto da família como a precarização do  trabalho, os horários e as longas horas de  transporte. As formas tradicionais de família estão ameaçadas de desaparecimento.

A família clássica patricentrada que distribuía os papéis consoante o gênero, privilegiando o pai e o esposo está cedendo lugar à família participativa, onde marido e mulher assumem todas as tarefas num sentido  cooperativo, aspecto esse que deve ser positivamente valorizado.

 O que está se impondo  hoje por causa da urbanização acelerada do mundo é a família nuclear: pai/mãe e filhos/filhas. Este tipo de família por força do regime de trabalho do casal (ambos trabalham fora), terceiriza funções que antes eram próprias da família: o cuidado do bebê por uma babá ou empregada e depois pela creche, a arrumação da casa, a preparação da comida, o cuidado pelos idosos e doentes. Tudo isso é feito por pessoas pagas para realizarem estas tarefas. Ao casal restam as relações intersubjetivas do afeto, da convivência e do companherismo.

A família ampliada que engloba a todos do mesmo laço de sangue, tende, especialmente nas metrópoles, a se diluir.    A grande família que encerrava a todos os que viviam sob o mesmo teto, familiares, parentes, inquilinos e empregados ficou reservada, praticamente, a alguns grandes latifundiários de terras que vivem relações arcaicas.

A família dos ancestrais se restringiu às famílias de notáveis, por algum título nobiliárquico ou outro qualquer. Elas  ainda cultivam tradições e  memórias genealógicas, mas geralmente o fazem num sentido socialmente conservador e elitista. Não determinam mais o sentido da família original.

3.Desafios das novas formas de coabitação
Ao lado das famílias-matrimônio que se constituem no marco jurídico-social e sacramental, mais e mais surgem as famílias-parceria (coabitação e uniões-livres) que se formam consensualmente fora do marco institucional e perduram enquanto houver a parceria, dando origem à família consensual não conjugal.

A introdução do divórcio dá lugar a famílias unipessoais (a mãe ou o pai com os filhos/filhas) ou   multiparentais (com filhos/filhas provenientes de matrimônios anteriores) com conhecidos problemas de relacionamento entre pais e filhos/filhas. Por fim, crescem no mundo todo as uniões entre homoafetivos (homens e mulheres) que lutam pela constituição de um quadro jurídico que lhes garanta estabilidade e reconhecimento social.

Não queremos emitir um juízo ético sobre estas formas de coabitação. Precisamos antes entender o fenômeno. Concretamente: como conceituar a família face às várias formas como ela está se estruturando?

Um especialista brasileiro, Marco Antônio Fetter, o primeiro entre nós a criar a Universidade da Família com todos os graus acadêmicos, asssim define:”a família é um conjunto de pessoas com objetivos comuns e com laços e vínculos afetivos fortes, cada uma delas com papel definido, onde naturalmente aparecem os papéis de pai, de mãe, de filhos e de irmãos”(2).

Transformação maior, entretanto, ocorreu na família com a introdução de preservativos e de anticoncepcionais, hoje incorporados à cultura como algo normal, fazendo com que o discurso contrário da Igreja hierárquica católica pareça a alguns críticos, extemporâneo, e no caso da AIDS, até demasiadamente rigorista. Os próprios cristãos, de resto fervorosos e determinados a acolher as prescrições oficiais, têm dificuldades de assumi-los. Acresce ainda que com os preservativos e a pílula, a sexualidade ficou separada da procriação e do amor estável.

Mais e mais a sexualidade bem como o matrimônio são vistos como chance de realização pessoal, incluindo ou não a procriação. A sexualidade conjugal ganha mais intimidade e espontaneidade, pois, pelos meios contraceptivos e pelo planejamento familiar fica liberada do imprevisto de uma gravidez não desejada. Os filhos/filhas deixam de ser consequência fatal de uma relação sexual mas  são queridos e decididos de comum acordo. Esta perspectiva é libertadora não obstante o risco do individualismo e do fechamento da família sobre si mesma.
A ênfase na sexualidade como realização pessoal propiciou o surgimento de formas de coabitação que não são o matrimônio. Expressão disso são as uniões consensuais e livres sem outro compromisso que a mútua realização dos parceiros ou a coabitação de homoafetivos, homens e mulheres.

 Tais práticas, por novas que sejam, devem incluir também uma perspectiva ética e espiritual. Importa zelar para que sejam expressão de amor e de mútua confiança. Se houver amor, para uma leitura cristã do fenômeno, ocorre algo que tem a ver com Deus, pois Deus é amor (1Jo 4,12.16). Então, não cabem preconceitos e discriminações. Antes, cumpre ter respeito e abertura para entender tais fatos e  colocá-los também diante de Deus, como insinuou o Papa Francisco em sua curta entrevista no avião regressando da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro. Se o casal homoafetivo vive um compromisso  e assumir a relação  com responsabilidade não se lhe pode negar relevância religiosa e espiritual. Cria-se uma atmosfera que ajuda superar a tentação da promiscuidade e reforça-se a fidelidade e a estabilidade que são bens de toda relação entre pessoas, seja por via do matrimônio ou de outra forma de coabitação. Então, antes de moralizar, procurar compreender.
Se há sexo sem procriação, pode haver procriação sem sexo. Trata-se do complexo problema da procriação in vitro, da inseminação artificial e do “útero de aluguel”. Toda esta questão é extremamente polêmica em termos éticos e espirituais e não parece que se tenha chegado a um consenso seja na sociedade seja nos pronunciamento das Igrejas.
Geralmente a posição oficial católica, expressa, por exemplo, na encíclica de João Paulo II, Evangelium Vitae tende a uma visão naturista, exigindo para a procriação a relação sexual direta dos esposos, quando, é razoável se admitir a legitimidade da união de um óvulo da esposa com um espermatozóide do marido de forma artificial e depois implatar óvulo fecundado no útero, desde que tal procedimento seja imbuido de amor e de adesão à vida.
Para encurtarmos a reflexão sobre esta questão tão complexa que não cabe aqui ser tratada, valemo-nos da  opinião de um especialista holandês católico:

“A tecnificação da procriação humana não é sem problemas. A inseminação artificial em suas diferentes formas, a fecundação in vitro e o transplante de embriões, todas estas possibilidades técnicas nos permitem, por um lado, tratar o espermatozóide e o óvulo como ‘material biológico’, e com eles fazer procedimentos técnicos e tomá-los como objeto de pesquisas científicas, e, por outro, realizar uma gravidez fora dos quadros seguros do casamento tradicional. Assim é possível que uma mulher engravide por inseminação artificial com esperma de um doador anônimo; pode-se reunir in vitro espermatozóides e óvulos e implantá-los depois em uma mulher qualquer; pode-se ter um filho por meio de uma ‘mãe de alguel’. Estes meios técnicos não estão, de forma neutra, à nossa disposição enquanto capacidade puramente instrumental”(3). Exigem um discernimento ético e a criação de uma ambiência de amor, de mútuo apoio e de calorosa acolhida da vida que vem.

Numa palavra: eles devem permanecer como instrumentos a serviço do amor, da ajuda a esposos com problemas e sempre no respeito à sacralidade da vida.
Não basta a procriação artificial. O ser humano tem direito de nascer humanamente, de um pai e de uma mãe que em seu amor o desejaram. Se por qualquer problema, recorre-se a uma intervenção técnica, nunca pode-se perder a ambiência humana e o correto propósito ético.

O filho/filha que daí procede deve poder ter nome e sobrenome e ser recebido socialmente. A identidade social, nestes casos, é mais importante, antropologicamente, que a identidade biológica, como no caso de Jesus em sua relação com José. Este dando-lhe um nome e inserindo-o em sua descendência davídica, garantiu a Jesus identidade social. Ademais, é importante que a criança seja inserida num ambiente familiar para que, em seu processo de individuação, possa realizar o complexo de Electra em relação à mãe ou o de Édipo em relação ao pai, de forma bem sucedida. Desta forma se evitam danos irreparáveis pelo resto da vida.

O que se deve, entretanto, impedir é que a procriação humana  seja entregue à instituições tecnológicas com seus especialistas que manipulam “material genético” pois seria a inaguração do terrificante “Admirável Mundo Novo”(1932) de Aldous Huxley, violando a sacralidade da vida e dispensando o que há de mais excelso e divino no ser humano que é sua capacidade de amar e pelo amor conjugal transmitir a vida, a maior criação da complexidade do universo e o supremo dom de Deus.

4. A Sagrada família e a família moderna

Depois desta agenda de problemas, alguém, seguramente, poderia perguntar: que tem a ver o arquétipo cristão de família que é representada pela família de Nazaré de Jesus, Maria e José, com a atual e contraditória família humana? Como ela  nos pode iluminar e inspirar?

Antes de qualquer resposta possível, cumpre reconhecer a radical diferença de situações e de modelos de família. Não  há apenas uma distância temporal de mais de dois mil anos, mas também uma distância cultural considerável. A família de Nazaré vivia a cultura agrária e das pequenas vilas, ligada diretamente à relações primárias. Nós viemos da cultura tecno-científica cheia de aparatos que nos criam um mundo de segunda mão. Neste nivel, Nazaré não nos poderá dizer, diretamete, nada. Habitamos em mundos diferentes.

Mas isso não é tudo o que se pode dizer. Ela, ao contrário, nos tem muito a dizer. Mas o que nos tem a dizer, se situa num outro nivel e  pode interessar a todos. Tanto lá como aqui, estamos às voltas com pessoas humanas que amam, que se angustiam, que tem perplexidades, que buscam sentido, que trabalham, que cuidam, seguem as tradições de seu povo e  que são tementes de  Deus. Todas estas pessoas são habitadas por sonhos, valores e propósitos de felicidade e paz. E também acometidas de angústias e medos como, segundo os evangelistas, por ocasião da fuga da família de Nazaré para o Egito porque Herodes ameaçava de morte o filho recém nascido.

 Toda família ou toda forma de coabitação e convivência entre humanos, seja de gêneros distingos ou do mesmo gênero,  por mais diferentes que sejam suas modalidades históricas, vivem, não de técnicas nem de arranjos, mas da vontade de encontrar e viver o  amor,  sonham em inserir-se bem na comunidade (era o que significava “ser justo”, aplicado a José) e ser minimamente felizes. O núcleo imutável da família é o afeto, o cuidado de um para com o outro e a vontade de estar junto, também abertos à procriação de novas vidas.  Este é o lado permanente, dentro do lado cultural cambiante.

Se assim é,  então, não devemos, em primeiro lugar, considerar o caráter institucional da família (a perspectiva dominante nos documentos eclesiásticos e nas reflexões dos teólogos) mas seu caráter relacional. Importa ver o complexo jogo de relações que se realiza entre os parceiros. Nestas relações é que está a vida, funcionam os sonhos e as utopias de amor, fidelidade, encontro e feliidade, numa palavra,  aparece o lado permanente. O lado institucional é socialmente legítimo, mas não é originário, ele é derivado, histórico e cambiente conforme as diferentes tradições. Por isso pode assumir as mais diversas formas. Nele a vida já vem enquadrada e  normas presidem as relações. Mas tais delimitações somente perduram com sentido quando são alimentadas pelo húmus do sonho, do afeto terno e pela intercomunhão.


Aceitas estas premissas, o que nos tem a dizer a família de Nazaré? Exatamente esse lado de relação, de amor, de cuidado, de piedade e de fidelidade a três: entre Jesus, Maria e José. Eles se transformaram em arquétipos cristãos que, num nível profundo e coletivo, continuam a alimentar o imaginário dos fiéis e a suscitar valores que dão sentido e trazem felicidade à família. É aquilo que chamamos modernamente de capital social familiar.

Estudos transculturais revelaram que a quantidade e a qualidade de tempo em que os membros da família passam juntos vivendo relações de afeto e de pertença são determinantes para os comportamentos individuais e para as opções sociais que serão tomadas. Se o capital social familiar se apresenta alto e sadio dá origem a uma maior confiança no próximo, há menos violência e corrupção. Em consequência, há mais participação nas associações, nos movimentos sociais e no voluntariado. Os conflitos familiares e o número de divórcios caem surpreendemente. Quando o capital social familiar vai se diluindo, lentamente emergem situações críticas com desfechos muitas vezes dramáticos senão trágicos.

Podemos imaginar que o capital social familiar de Jesus, Maria e José era altíssimo. Logicamente, sabemos pouco do dia-a-dia da sagrada Família. A pesquisa histórica e exegética levantou os dados sócio-históricos mais seguros especialmente nos últimos anos com os métodos refinados da arqueologia e da antropologia da vida cotidiana (cf. J. A. Pagola e J. H. Crossan entre outros). Mas Independente desta pesquisa, ao analisarmos o José da história, que de profissão era artesão e campones mediterrâneo, depois esposo, pai, educador e “homem justo” veremos que ele é representante legítimo da família normal judaica, piedosa, ordeira e trabalhadora.
texto retirado de: leonardoboff.wordpress.com.



sexta-feira, 14 de março de 2014

O PAPA FRANCISCO DEPOIS DE UM ANO

A primavera irrompeu: o Papa Francisco depois de um ano
14/03/2014
Esta entrevista foi publicada originalmente no DW Brasil.
Em 13 de março de 2013, Francisco foi eleito papa. E em apenas um ano à frente do Vaticano, colocou em discussão uma série de assuntos antes deixados de lado pela Igreja, dando início a um processo de transformação da instituição e do papel do pontífice.
Em entrevista à DW, Leonardo Boff, um dos expoentes da Teologia da Libertação e um dos principais críticos do conservadorismo católico, diz que Francisco tornou a Igreja mais viva ao fazer uma reforma do papado.
“Francisco não vestiu o figurino clássico do ‘papa monarca’ com o primado jurídico absoluto e com a supremacia doutrinal e pastoral”, afirma Boff, que em 1992 deixou todos os cargos na Igreja, após ser censurado pelo Vaticano. “Ele mudou o clima. Antes o ambiente era severo e sombrio.”

DW: O que mudou na Igreja Católica no Brasil um ano depois que o papa Francisco foi eleito?
Leonardo Boff: Ele mudou o clima, o que não é pouco. Há alívio porque a Igreja como instituição era vista como um pesadelo. Há alegria, pois antes o ambiente era severo e sombrio. O que se percebe é que muitos padres e bispos se tornaram mais acessíveis ao povo, mais tolerantes, menos doutrinários. O arcebispo do Rio, Dom Orani Tempesta, ao ir a Roma para receber o chapéu cardinalício, viajou de classe econômica para seguir o exemplo do cardeal Bergoglio, que sempre viajava assim. Mas talvez seja cedo demais para ter uma impressão mais precisa das modificações nos hábitos dos padres e dos cristãos.

Com o papa, a Teologia da Libertação pode ressurgir das cinzas?
Ela nunca esteve nas cinzas porque a opressão continua e os cristãos conscientes se orientavam pela Teologia da Libertação para dar sentido às suas práticas. Os teólogos continuaram a publicar, apesar da vigilância severa do cardeal Ratzinger, que se fez inimigo da inteligência dos pobres.
Esse é o peso que ele carregará pela história. Roma tentou por todas as formas liquidar com este tipo de teologia, mas saiu frustrada, pois o teor evangélico da Teologia da Libertação depunha contra Roma, que se mostrava indiferente face ao drama dos pobres. Fala dos pobres, mas nunca quer encontrá-los fisicamente.

 Qual foi o papel da Teologia depois que Francisco assumiu o Vaticano?
Com o novo papa ela ganhou centralidade, pois ele colocou a questão da justiça social e da igreja pobre para os pobres no centro das preocupações de seu pontificado. Ele vai ao encontro dos pobres, abraça-os e beija-os porque são, segundo suas palavras, “a carne de Cristo”. Ao receber em audiência no dia 11 de setembro de 2013 Gustavo Guiérrez, um dos fundadores desta teologia, e em seguida o pequeno irmão de Jesus Arturo Paoli, de 102 anos, que trabalhou durante 45 anos na linha da libertação na América Latina, o papa deu sinais claros de que quer prestigiar e até resgatar a Teologia da Libertação.

O papa quer prestigiar e aumentar o poder dos leigos porque a falta de padres no continente é grave. Já há sinais de quais serão esses novos poderes? Eles poderão celebrar a eucaristia ou outros sacramentos?
A categoria central da visão de Igreja que o papa representa é a “Igreja como povo de Deus”. Todos pertencem a este povo, que é constituído principalmente por leigos, homens e mulheres. O papa quer que os leigos, especialmente as mulheres, participem das decisões da Igreja e não apenas participem da vida da Igreja. A forma como o fará não sabemos. Sabemos apenas que ele é surpreendente e que coisas novas poderão ser esperadas, inclusive a nomeação de mulheres como cardeais, já que “cardeal” é na tradição um título, desvinculado do sacramento da Ordem.
Não é preciso ser padre ou bispo para ser cardeal. Não creio que ele permitirá que leigos celebrem eucaristias, pois seria um passo demasiadamente ousado. Mas como ocorre nas comunidades eclesiais de base nas quais não está presente um padre, ritualiza-se e dramatiza-se a ceia do Senhor. Eu creio, como teólogo, que tal prática é uma forma de trazer sacramentalmente Cristo para o seio da comunidade.

Qual a contribuição que a Igreja da America Latina poderia dar para as reformas do Vaticano?
A maior contribuição que a América Latina está dando à reforma do Vaticano é a pessoa do papa Francisco. Ele não começou com a reforma da Cúria, mas com a reforma do papado. Ele não vestiu o figurino clássico do “papa monarca” com o primado jurídico absoluto e com a supremacia doutrinal e pastoral. Ele se entende com bispo de Roma e quer presidir na caridade.
É importante observar que esse papa cresceu dentro do caldo cultural e eclesial da Igreja latino-americana, cujo rosto é muito diferente da Igreja da velha cristandade europeia. É uma Igreja viva, com comunidades de base, com pastorais sociais fortes, com figuras de bispos proféticos e com mártires da perseguição das ditaduras militares.

Que características o papa Francisco trouxe para o pontificado?
Ele traz ao Vaticano hábitos novos, evangélicos e proféticos. Ele se entende como um homem comum que gosta de estar junto com outros homens comuns, partilhando de suas buscas e perplexidades. Mais que ensinar, ele quer aprender no diálogo e na convivência. Estes traços pastorais são típicos da maioria dos bispos da América Latina. Com isso ele está resgatando o rosto humanitário, misericordioso e afável da severa institucionalidade da Igreja. Penso que ele será o primeiro de muitos papas que virão do terceiro mundo, pois aqui vive a maioria dos católicos.

Na sua opinião, qual seria a reforma mais importante que a Igreja Católica teria de fazer?
Eu creio que haverá uma nova forma de direção da Igreja, não mais monárquica, mas colegial. Quer dizer, o papa não dirigirá a Igreja sozinho, mas com um colégio de cardeais, bispos, leigos e mulheres. Ele insinuou claramente isso dizendo que deve haver mais corpos de decisão na Igreja junto com ele.

O Brasil ou a América Latina poderiam ser pioneiros em alguma delas?
Na América Latina temos acumulado boas experiências de pastoral de conjunto, seja no nível nacional, seja no continental. Quanto ao celibato, já foi dito que não é uma questão fechada como o era no tempo de João Paulo 2º, que proibia sequer levantar tal questão. A meu ver o caminho será mais ou menos este: primeiro convidará os cem mil padres casados do mundo inteiro que possam, e que queiram, para reassumir o ministério.
Este seria o primeiro passo. Em seguida permitiria o celibato opcional. Não haveria mais a lei do celibato obrigatório. Para este papa a Igreja é de todos, especialmente daqueles que foram postos de lado. A Igreja é uma casa aberta para todos. Todos podem entrar sem prévias condições.

O sr. estaria disposto a assumir um cargo de liderança nesse processo de reformas?
Não espero nem pretendo ter nenhuma função na Igreja. Basta-me a palavra livre.


sexta-feira, 15 de março de 2013

TEOLOGIA PARTICULAR NUMA IGREJA UNIVERSAL


Mais um texto que tenho o prazer de compartilhar com os leitores do meu blog sobre pastoral. Esse texto traz as ideias de Leonardo Boff sobre a real motivação da renúncia de Bento XVI. Em meu a alegria de se ter pela primeira vez um Papa Latino Americano não é o suficiente para esquecermos que nossa visão da relação do homem e da mulher com Deus passa necessariamente pela luta por justiça social. Essa maneira de ver essa relação pelo viés da libertação, portanto é uma teologia da libertação, foi sufocada e eu vítima nos meus anos de seminário. Intitulei essa minha partilha com TEOLOGIA PARTICULAR NUMA IGREJA UNIVERSAL como convergência de ideia com Leonardo Boff que denuncia justamente o erro do Papa Bento XVI em seu papado. A Igreja Católica, portanto, universal carrega a riqueza de ter uma unidade no Papa, reconhecida por Rubem Alves, que deve congregar as diferentes correntes de pensamento e portanto as diferentes teologias.
Segue o texto postado na íntegra:

O colapso de sua teologia: razão maior da renúncia de Bento XVI?
Nutro séria suspeita de que o fracasso e colapso do edifício teológico de Bento XVI lhe tirou “o necessário vigor do corpo e do espírito” a ponto de, como confessa, “sentir incapacidade de exercer seu ministério”. Cativo de sua própria teologia, não lhe restou outra alternativa senão honestamente renunciar. Por Leonardo Boff
Leonardo Boff*

É sempre arriscado nomear um teólogo para a função de papa. Ele pode fazer de sua teologia particular a teologia universal da Igreja e impô-la a todo o mundo. Suspeito que esse foi o caso de Bento XVI, primeiramente enquanto cardeal, nomeado prefeito da Congregação da Doutrina da Fé (ex-Inquisição) e depois papa. Tal fato não goza de legitimidade e se transforma em fonte de condenações injustas. Efetivamente, condenou mais de cem teólogos e teólogas por não se enquadrarem em sua leitura teológica da Igreja e do mundo.

Razões de saúde e o sentimento de impotência face à gravidade da crise na Igreja o levaram a renunciar. Mas não só. No texto de sua renúncia dá conta da “diminuição de vigor do corpo e do espírito” e de “sua incapacidade” de enfrentar as questões que dificultavam o exercício de sua missão. Por detrás desta formulação, estimo que se oculta a razão mais profunda de sua renúncia: a percepção do colapso de sua teologia e do fracasso do modelo de Igreja que quis implementar. Uma monarquia absolutista não é tão absoluta a ponto de dobrar a inércia de envelhecidas estruturas curiais.

As teses centrais de sua teologia sempre foram problemáticas para a comunidade teológica. Três delas acabaram refutadas pelos fatos: o conceito de Igreja como “pequeno mundo reconciliado”; a Cidade dos Homens só ganha valor diante de Deus passando pela mediação da Cidade de Deus; e o famoso “subsistit” que significa: só na Igreja Católica subsiste a verdadeira Igreja de Cristo; todas as demais Igrejas não podem ser designadas igrejas. Esta compreensão estreita de uma inteligência aguda mas refém de si mesma não tinha a força intrínseca suficiente e a adesão para ser implementada. Bento XVI teria reconhecido o colapso e coerentemente renunciado? Há razões para esta hipótese.

O papa emérito teve em Santo Agostinho seu mestre e inspirarador, objeto aliás de algumas conversas pessoais com ele. De Agostinho assumiu a perspectiva de base, começando com sua exdrúxula teoria do pecado original (se transmite pelo ato sexual da geração). Isso faz com que toda a humanidade seja uma “massa condenada”. Mas dentro dela, Deus por Cristo, instaurou uma célula salvadora, representada pela Igreja. Ela é “um pequeno mundo reconciliado” que tem a representação (Vertretung) do resto da humanidade perdida. Não é necessário que tenha muitos membros. Bastam poucos, contanto que sejam puros e santos. Ratzinger incorporou esta visão. Completou-a com a seguinte reflexão: a Igreja é constituída por Cristo e os Doze Apóstolos. Por isso é apostólica. Ela é apenas este pequeno grupo. Desconsidera os discípulos, as mulheres e as massas que seguiam Jesus. Para ele não contam. São atingidas pela representação (Vertretung) que “o pequeno mundo reconciliado” assume. Esse modelo eclesiológico não dá conta do vasto mundo globalizado. Quis então fazer da Europa “o mundo reconciliado” para reconquistar a humanidade. Fracassou porque o projeto não foi assumido por ninguém e até posto a ridículo.

A segunda tese tirada também de Santo Agostinho é sua leitura da história: o confronto entre a Cidade de Deus e a Cidade dos Homens. Na Cidade de Deus está a graça e a salvação: ela é o único pedágio que dá acesso à salvação. A Cidade dos Homens é construída pelo esforço humano. Mas como já é contaminado, todo o seu humanismo e demais valores não conseguem salvar porque não passaram pela mediação da Cidade de Deus (Igreja). Por isso que ela é eivada de relativismos. Consequentemente o cardeal Ratzinger condena duramente a teologia da libertação, porque esta buscava a libertação pelos pobres mesmos, feitos sujeitos autônomos de sua história. Mas como não se articula com a Cidade de Deus e sua célula, a Igreja, é insuficiente e vã.

A terceira é uma interpretação pessoal que dá do Concílio Vaticano II quando fala da Igreja de Cristo. A primeira elaboração conciliar dizia que a Igreja Católica é a Igreja de Cristo. As discussões, visando o ecumenismo, substituíram o é pelo subsiste para dar lugar a que outras Igrejas cristãs, a seu modo, realizassem também a Igreja de Cristo. Essa interpretação, sustentada na minha tese doutoral, mereceu uma explícita condenação do cardeal Ratzinger no seu famoso documento Dominus Jesus (2000). Afirma que susbsiste vem de "subsistência", que só pode ser uma e se dá na Igreja Católica. As demais Igrejas possuem “somente” elementos eclesiais. Esse “somente” é um acréscimo arbitrário que fez ao texto oficial do Concílio. Tanto eu quanto outros notáveis teólogos mostramos que este sentido essencialista não existe no latim. O sentido é sempre concreto: “ganhar corpo”, “realizar-se objetivamente”. Esse era o “sensus Patrum” o sentido dos Padres conciliares.

Estas três teses centrais foram refutadas pelos fatos: dentro do “pequeno mundo reconciliado” há demasiados pedófilos, até entre cardeais, e ladrões de dinheiros do Banco Vaticano. A segunda, de que a Cidade dos Homens não tem densidade salvadora diante de Deus, labora num equívoco ao restringir a ação da Cidade de Deus apenas ao campo da Igreja. Dentro da Cidade dos Homens, se encontra também a Cidade de Deus, não sob a forma de consciência religiosa mas sob a forma de ética e de valores humanitários. O Concílio Vaticano II garantiu a autonomia das realidades terrestres (outro nome para secularização), que tem valor independentemente da Igreja. Contam para Deus. A Cidade de Deus (Igreja) se realiza pela fé explícita, pela celebração e pelos sacramentos. A Cidade dos Homens pela ética e pela política.

A terceira de que somente a Igreja Católica é a única e exclusiva Igreja de Cristo e, ainda mais, que fora dela não há salvação, tese medieval ressuscitada pelo cardeal Ratzinger, foi simplesmente ignorada como ofensiva às demais Igrejas. Ao invés do “fora da Igreja não há salvação” se introduziu no discurso dos papas e dos teólogos “o universal oferecimento da salvação a todos os seres humanos e ao mundo”.

Nutro séria suspeita de que tal fracasso e colapso de seu edifício teológico lhe tirou “o necessário vigor do corpo e do espírito” a ponto de, como confessa, “sentir incapacidade de exercer seu ministério”. Cativo de sua própria teologia, não lhe restou outra alternativa senão honestamente renunciar.

* Leonardo Boff, teólogo e filósofo, é também escritor.
publicado na Carta Maior em 13/03/2013.

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALAREI DOS ESPINHOS


Reproduzo as palavras da Revista Carta Maior sobre o novo Papa como uma alerta que nem tudo é festejo. Ainda arde na América Latina o desejo de uma mudança. Isso puxa a ideia de um texto preparado mentalmente por enquanto, intitulado por enquanto, A FUMAÇA DO VATICANO E A BRASA A AMÉRICA LATINA. 


A FUMAÇA  BRANCA E A FUMAÇA SOMBRIA 
 A escolha do nome 'Francisco' pelo novo Papa, resgatou a esperança de setores cristãos progressistas  numa reconciliação da Igreja com a opção pelos pobres, simbolizada na ordem dos franciscanos, e consagrada nos valores do Vaticano II. A longa noite de repressão doutrinária imposta pelos papados de João Paulo II e Bento XVI, com o aggiornamento dos tribunais da inquisição, teria, desse ponto de vista, atingido um limite de exaustão conservadora na cúpula romana. Crises, escândalos e disputas autofágicas pelo poder entre falanges extremadas desencadearam assim dois movimentos de autopreservação na burocracia de Roma: a renúncia 'sanitária' de Bento XVI e a escolha de um tertius, um papa sulamericano, externo ao embate que corrói o Vaticano. O duplo  sinal inauguraria  uma espécie de 'abertura lenta, segura e gradual' no interior da igreja. A escolha do nome 'Francisco' pelo novo Papa foi entendida desse modo pela esperança progressista, como um aceno de moderação e retorno a um diálogo reprimido nas últimas décadas. Leonardo Boff, um dos expurgados pelo ciclo Ratzinger, assegura, por exemplo, que o nome escolhido por um Papa não é apenas um ornamento, mas encerra um projeto de Igreja. Isso é o que teria dito a fumaça branca emitida na quarta-feira, em Roma. Pode ser. Mas a ela seguiu-se uma fumaça sombria, densa, carregada de fumos de horror e dúvida. Uma delas condensa todas as demais: onde estava, e o que  fez  Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco I, entre 1976 e 1983, quando uma ditadura militar aterrorizante matou e desapareceu com 30 mil pessoas  em seu país? (leia nesta pag. as análises e reportagens de Eduardo Febbro, Dermi Azevedo e Martin Granovsky. 

Agradecimentos a Júlio César de Oliveira pelo envio do newsletter da Revista Carta Maior

domingo, 1 de agosto de 2010

CRISE NA IGREJA

Percebo que o mundo não quer uma Igreja atuante e nem a Igreja proposta por Bento XVI quer ser atuante no mundo. Por isso repasso aos estimados leitores do meu blog sobre pastoral um artigo de Leonardo Boff, sobre essa atual crise da Igreja. É preciso estar com o espírito crítico em dia para entender bem o que nosso Teólogo está de fato dizendo. Acredito que o artigo de Leonardo Boff, bem entendido, anima nossa esperança de leigos e leigas, bem como de padres e religiosos comprometidos com a evangelização.
Eis o artigo.
Onde está a verdadeira crise da Igreja
quarta-feira, 14 de julho de 2010

Leonardo Boff *

A crise da pedofilia na Igreja romano-católica não é nada em comparação à verdadeira crise, essa sim, estrutural, crise que concerne à sua institucionalidade histórico-social. Não me refiro à Igreja como comunidade de fiéis. Esta continua viva apesar da crise, se organizando de forma comunitária e não piramidal como a Igreja da Tradição. A questão é: que tipo de instituição representa esta comunidade de fé? Como se organiza? Atualmente, ela comparece como defasada da cultura contemporânea e em forte contradição com o sonho de Jesus, percebida pelas comunidades que se acostumaram a ler os envangelhos em grupos e então a fazer a suas analises.

Dito de forma breve mas não caricata: a instituição-Igreja se sustenta sobre duas formas de poder: um secular, organizativo, jurídico e hierárquico, herdado do Império Romano e outro espiritual, assentado sobre a teologia política de Santo Agostinho acerca da Cidade de Deus que ele identifica com a instituição-Igreja. Em sua montagem concreta não é tanto o Evangelho ou a fé cristã que contam, mas estes poderes, considerados como um único "poder sagrado" (potestas sacra) também na forma de sua plenitude (plenitudo potestatis) no estilo imperial romano da monarquia absolutista. César detinha todo o poder: político, militar, jurídico e religioso. O Papa, semelhantemente detém igual poder: "ordinário, supremo, pleno, imediato e universal" (canon 331), atributos só cabíveis a Deus. O Papa institucionalmente é um César batizado.

Esse poder que estrutura a instituição-Igreja foi se constituindo a partir do ano 325 com Imperador Constantino e oficialmente instaurado em 392 quando Teodósio, o Grande (+395) impôs o cristianismo como a única religião de Estado. A instituição-Igreja assumiu esse poder com todos os títulos, honrarias e hábitos palacianos que perduram até os dias de hoje no estilo de vida dos bispos, cardeais e papas.

Esse poder ganhou, com o tempo, formas cada vez mais totalitárias e até tirânicas, especialmente a partir do Papa Gregório VII que em 1075 se autoproclamou senhor absoluto da Igreja e do mundo. Radicalizando, Inocêncio III (+1216) se apresentou não apenas como sucessor de Pedro mas como representante de Cristo. Seu sucessor, Inocêncio IV(+1254), deu o último passo e se anunciou como representante de Deus e por isso senhor universal da Terra que podia distribuir porções dela a quem quisesse, como depois foi feito aos reis de Espanha e Portugal no século XVI. Só faltava proclamar Papa infalível, o que ocorreu sob Pio IX em 1870. O circulo se fechou.

Ora, este tipo de instituição encontra-se hoje num profundo processo de erosão. Depois de mais de 40 anos de continuado estudo e meditação sobre a Igreja (meu campo de especialização) suspeito que chegou o momento crucial para ela: ou corajosamente muda e assim encontra seu lugar no mundo moderno e metaboliza o processo acelerado de globalização e ai terá muito a dizer, ou se condena a ser uma seita ocidental, cada vez mais irrelevante e esvaziada de fiéis. O projeto atual de Bento XVI de "reconquista" da visibilidade da Igreja contra o mundo secular é fadado ao fracasso se não proceder a uma mudança institucional. As pessoas de hoje não aceitam mais uma Igreja autoritária e triste como se fosse ao próprio enterro. Mas estão abertas à saga de Jesus, ao seu sonho e aos valores evangélicos.

Esse crescendo na vontade de poder, imaginado ilusoriamente vindo diretamente de Cristo, impede qualquer reforma da instituição-Igreja, pois tudo nela seria divino e intocável. Realiza-se plenamente a lógica do poder, descrita por Hobbes em seu Leviatã: "o poder quer sempre mais poder, porque não se pode garantir o poder senão buscando mais e mais poder". Uma instituição-Igreja que busca assim um poder absoluto fecha as portas ao amor e se distancia dos sem-poder, dos pobres. A instituição perde o rosto humano e se faz insensível aos problemas existenciais, como da família e da sexualidade.

O Concílio Vaticano II (1965) procurou curar este desvio pelos conceitos de Povo de Deus, de comunhão e de governo colegial. Mas o intento foi abortado por João Paulo II e Bento XVI que voltaram a insistir no centralismo romano, agravando a crise.

O que um dia foi construído pode ser num outro, desconstruído. A fé cristã possui força intrínseca de nesta fase planetária encontrar uma forma institucional mais adequada ao sonho de seu Fundador e mais consentânea ao nosso tempo.

* Teólogo, filósofo e escritor